Produtor de Orgânicos

Casos de sucesso em agricultura orgânica e agricultura familiar no Cerrado são apresentados na Feira Brasil na Mesa

Rio, 5 de maio de 2026.

A trajetória de sucesso da Fazenda Malunga, do Distrito Federal, e a pesquisas participativas da Embrapa Cerrados (DF) com agricultores familiares foram apresentadas no painel “Experiências em agricultura familiar & agricultura orgânica no Cerrado: do campo à mesa”, o último da programação da Feira Brasil na Mesa, realizada na Unidade entre 23 e 25 de abril em comemoração aos 53 anos de criação da Embrapa.

O produtor Joe Valle falou sobre a experiência da Fazenda Malunga, no Distrito Federal, que há 38 anos produz e comercializa alimentos orgânicos. A propriedade tem cerca de 200 empregados e 150 ha de área total, sendo 60 ha cultivados com 25 diferentes hortaliças, além da produção de leite e laticínios. A Malunga vende 15 mil itens por dia e faz entregas em mais de 100 lojas entre Brasília e Goiânia.

“Começamos construindo um processo para fazer e ter sustentabilidade, que não é só ambiental e social: é, especialmente, no mundo em que vivemos, econômica. Se eu tiver o ambientalmente correto e o socialmente justo mas não for economicamente viável, não tenho sustentabilidade”, afirmou Valle, cuja esposa e as duas filhas também trabalham na Malunga.

Ele explicou como é feito o trabalho de pós-colheita e a logística dos produtos, que são refrigerados, buscando aumentar o tempo de prateleira e reduzir desperdícios. “Temos que produzir e vender. A parte da comercialização é fundamental para avançarmos todos os dias”, disse, citando o Programa de Aquisição da Produção da Agricultura (PAPA), política pública que viabiliza a compra direta, pelo Governo do Distrito Federal, de alimentos e produtos artesanais de agricultores familiares e organizações sociais do setor agrícola.

Valle relembrou o início do trabalho na Malunga, marcado pela contínua avaliação do que funciona e do que não funciona na produção. “Existia uma dúvida enorme sobre o que não produzia, e não tínhamos uma base científica da fisiologia da planta, do processo, do clima e de como isso funciona. Fomos trabalhando e conseguimos chegar a um formato de sistema que nos permite ter regularidade na produção, com qualidade, quantidade, rastreabilidade e segurança alimentar, que são as quatro condições para estar no mercado hoje”, explicou, ressaltando a importância que a segurança alimentar vem assumindo no momento.

O produtor mostrou uma foto aérea das unidades produtivas da fazenda, explicando que em cada uma há uma sequência de produção e são feitas análises químicas e físicas do solo, além da Bioanálise do Solo (BioAS), tecnologia desenvolvida pela Embrapa. “Temos um espectro que nos permite tomar decisão cada vez com mais segurança em todo o processo”, disse, citando a evolução no processo de higienização dos produtos, trabalho realizado em parceria com a Embrapa Hortaliças (DF).

“A gente vem construindo a partir do conhecimento, que é o principal insumo da agricultura. Por isso, a Embrapa é a grande mola propulsora do nosso agronegócio. Somos muito bons porque vocês são muito bons. A Malunga é uma história viva de parcerias com a Embrapa”, afirmou.

Para exceder as expectativas dos clientes, Valle começou a abrir as lojas Mercado Malunga em 2019 atualmente são cinco, e a sexta será inaugurada em outubro , seguindo a tendência mundial de consumo de alimentos cada vez mais frescos e locais, bem como de mais fibras e proteínas. “Na Associação Brasileira de Supermercados, fala-se de 26% de diminuição do consumo de arroz e crescimento de 7% a 8% no consumo de proteínas. A fibra agora será a nova proteína. Vamos lançar um sorvete com fibras. Essa é uma tendência e isso vai mudar lá no solo onde a gente está produzindo. Essas coisas começam a fazer a diferença na prateleira do supermercado”, afirmou.

Um grande desafio da Malunga era a produção de frutas, que há até pouco tempo não era realizada pela fazenda. “Seis anos atrás, o Carrefour chegou para a gente e falou que queria fruta. Eu disse: ‘Mas eu não produzo fruta, não quero produzir fruta’. ‘Então não compraremos suas verduras’ (disseram). É a parceria da cobra com o rato. Aprendi a ser rato, negociar com a cobra e não ser comido. Você deixa a cobra sempre com a barriga cheia. Mas mesmo com barriga cheia, tem que ficar longe do bote dela, porque às vezes ela te dá o bote por instinto. Temos que entender isso”, comparou. “Se puder fazer um grupo grande de ratinhos e um comércio entre eles, ótimo. É o que faço no Mercado Malunga e nas feiras orgânicas”, completou Valle.

Ao citar que dois dos primeiros empregados ainda trabalham na Malunga, o produtor enfatizou que a base de tudo são as pessoas. “Temos trabalhado o propósito de alimento orgânico e felicidade para todos. Não quer dizer que dou tapinhas nas costas das pessoas, mas fazemos gestão com amor de mãe, que é um amor exigente, que impõe limites. Mas é amor, tem a palavra mágica chamada ‘cuidado’ nessa história”, explicou.

O produtor falou sobre a evolução do sistema de produção da fazenda: “Há muito conhecimento envolvido até termos as rotações certas, o solo certo, o mapa de solos. Vimos que há um tripé basilar no processo. Usamos pó de rocha, microrganismos e plantas de cobertura”, disse, também citando o uso de biochar, de biofertilizantes produzidos e testados na fazenda, de controle biológico de pragas, de penetrômetro para verificar a compactação do solo, da medição da temperatura das plantas, de galinhas para controle de grilos nas estufas e de uma máquina para controle de formigas cortadeiras desenvolvida na própria Malunga.

Entre os trabalhos em parceria com a Embrapa, Valle citou o cultivo, beneficiamento e comercialização de cultivares de mandioca de mesa de polpa amarela e rosada, além de testes com soja orgânica e pesquisas com homeopatia de bovinos. Também mostrou algumas ações de marketing nos supermercados e informou que a Fazenda Malunga está buscando a certificação GlobalG.A.P., que atesta que os produtos são seguros, rastreáveis e ecologicamente corretos.

“Tudo isso é uma vitória da persistência e porque a gente gosta. Mas, além de gostar, tem um monte de gente legal que nos ajuda. Sou muito grato a vocês, porque (também) são protagonistas dessa história”, finalizou, agradecendo aos pesquisadores da Embrapa e demais parceiros.

Agricultura familiar e desenvolvimento rural no Noroeste mineiro
As experiências da Embrapa Cerrados com agricultura familiar e desenvolvimento rural foram apresentadas pelo pesquisador José Humberto Xavier. No Brasil, de acordo com o Censo Agropecuário 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o segmento ocupa 81,3 milhões de ha, ou 23% de toda a área agrícola do País. São 3,9 milhões de estabelecimentos de agricultura familiar (77% do total), sendo que 89% destes têm área de até 50 ha.

Os 10,1 milhões de agricultores familiares brasileiros representam 67% da mão de obra ocupada no campo e são responsáveis por 23% (R$ 106 bilhões) do valor bruto da produção (VBP) agropecuária nacional. A agricultura familiar tem grande participação no VBP da produção brasileira de mandioca (80%), de leite (63%), de hortaliças (62%), da fruticultura (45%), do café (34%), de suínos (31%) e de aves (23%).

“Uma questão muito importante da agricultura familiar é que a gestão e o trabalho são feitos pela família, e isso faz a diferença em relação a uma fazenda com mão de obra majoritariamente de empregados e gestão do proprietário. Se o empregado não está bom, a gente tenta melhorar; se não der, ele terá que ser demitido. Mas será bem difícil um agricultor familiar demitir o próprio filho”, comentou o pesquisador.

Outra característica importante da agricultura familiar brasileira apontada por Xavier é a diversidade. Há desde produtores cuja produção se destina ao consumo pela família e que buscam renda trabalhando em outro local, utilizam a aposentadoria ou algum benefício social, até aqueles que comercializam grande parte da produção, obtendo assim o seu sustento. E entre esses dois tipos, há uma grande variedade de agricultores familiares. “Como pesquisadores da Embrapa, temos que construir soluções pensando em toda essa diversidade”, observou.

O pesquisador apontou as principais restrições dos agricultores familiares: normalmente são áreas pequenas, localizadas em relevos muitas vezes desfavoráveis ao trabalho mecânico; pouca mão de obra disponível, dificultando a adoção de tecnologias que demandem muitos agricultores; dificuldades de acesso a maquinário, o que aumenta a penosidade do trabalho; baixa escolaridade, que torna mais difícil a compreensão de informes técnicos; e dificuldade de acesso a políticas públicas.

Na Embrapa Cerrados, as pesquisas focadas em agricultura familiar foram iniciadas na década de 1980. “Os pesquisadores da Unidade estavam inquietos porque gerávamos um grande conjunto de conhecimentos, mas os pequenos produtores não estavam se apropriando disso. Então, eles saíram para interagir com essas comunidades de agricultores e entender o que estava acontecendo, mas ainda muito voltados à questão da tecnologia de produção”, recordou.

Na visão da época, bastaria que a tecnologia fosse adotada para que a vida das pessoas melhorasse. “E aí aconteceram as desventuras”, disse Xavier. “A coisa não avançava e eles constataram que se olhassem a produção ou a tecnologia de produção de forma isolada, teriam muita dificuldade até para que essas tecnologias fossem adotadas”, contou. Foi então que surgiu a ideia de considerar outros fatores além da questão produtiva. “Por isso, partimos para a abordagem do desenvolvimento. O que quer dizer isso? A vida das pessoas e o que está relacionado à melhoria dela. E aí começamos a pensar de novo”, explicou.

Na abordagem da pesquisa participativa, o agricultor se torna mais um agente de pesquisa, contribuindo com o seu olhar sobre a construção do conhecimento e adicionando novos elementos. “Além da questão da produção, agregamos duas questões importantes: a organização social, que são as relações das pessoas dentro das comunidades, e as relações com o mercado”, disse o pesquisador, acrescentando que a ideia é trabalhar em comunidades de agricultores pensando no planejamento da melhoria da vida desses locais.

O primeiro passo da metodologia é entender a realidade da comunidade, considerando a situação da produção, da organização social na comunidade e dos recursos naturais, sobretudo na visão dos agricultores. A partir desse conhecimento, os agricultores, com o apoio da equipe técnica (extensão rural e pesquisa), constroem o planejamento e saem a campo para executar as ações propostas em conjunto. “A melhoria da produção continua, só que agora voltada a gerar ou adaptar conhecimentos e validar tecnologias de conhecimento na execução dos planos de desenvolvimento”, explicou, acrescentando que a mesma lógica se aplica às relações com o mercado envolvendo não apenas a questão da venda como também a forma de aquisição dos insumos necessários , assim como à melhoria da organização social.

Para exemplificar a aplicação da abordagem da pesquisa participativa, Xavier apresentou o trabalho em um assentamento de reforma agrária em Unaí, no Noroeste de Minas Gerais, importante bacia leiteira do estado. Com a falência da empresa para a qual os agricultores familiares vendiam o leite, a aquisição de tanques coletivos de resfriamento passou a ser a grande prioridade para viabilizar a venda do produto às cooperativas do município. Mas, durante o planejamento das ações, surgiram outras questões não diretamente ligadas à produção, e sim à vida das pessoas, como a construção de uma ponte para melhorar o acesso dos agricultores e de uma área de lazer comunitária.

A comunidade elaborou um projeto para captar recursos e viabilizar o acesso aos tanques coletivos de resfriamento de leite, além de estabelecer as normas de funcionamento. No entanto, segundo o pesquisador, no levantamento dos pontos fortes e fracos, bem como das oportunidades e ameaças, quase todos os pontos fracos estavam ligados à questão da relação entre as pessoas, como falta de confiança de uns nos outros, pouca clareza na prestação de contas da associação e dificuldades de assumir responsabilidades. Para sanar essas limitações, os técnicos de assistência técnica realizaram um trabalho de melhoria das relações sociais com dinâmicas de grupo.

Quanto à melhoria da produção de leite, tecnologias de formação e manejo de pastagens e de manejo da cana de açúcar, além de cultivares de milho, foram disponibilizadas e desafiadas em ambiente real, sendo manejadas pelos próprios agricultores. Dessa forma, as soluções puderam ser testadas quanto à eficácia na resolução dos problemas apontados por eles, tendo sido também avaliadas pelos pesquisadores. Foi proposto o Sistema Plantio Direto, com a construção do conhecimento visando à uma produção mais amigável ao meio ambiente.

Com a gestão dos tanques de resfriamento, foi identificada a necessidade de melhoria da formação técnica, sobretudo quanto à prestação de contas para os associados. A comunidade então buscou o apoio da prefeitura municipal por meio da política Educação de Jovens e Adultos (EJA) e montou uma sala de educação para adultos, investindo em cursos de capacitação técnica.

Como resultados dessas ações, a produção de leite aumentou 3,3 vezes em cinco anos, sobretudo devido à validação de conhecimentos para melhoria da produção na realidade dos agricultores. No período, a renda bruta média aumentou 244% e os agricultores conseguiram vender o leite resfriado coletivamente, obtendo melhores preços.

A construção da ponte, questão importante, porém complexa por envolver comunidades vizinhas e necessitar a mobilização de recursos então inexistentes e a interação com o poder público local, foi finalmente viabilizada. “Os agricultores não vivem para produzir, eles produzem para viver. E a vida deles vai além da produção, que é importante. Mas se queremos gerar conhecimento adaptado, precisamos levar em consideração essas outras questões, sobretudo na condição de muitos agricultores familiares que estão em áreas bastante difíceis”, argumentou Xavier.

Com a montagem da sala de educação para adultos e a realização dos cursos, houve redução no percentual, entre pessoas com mais de 18 anos de idade, da escolaridade até a quarta série do Ensino Fundamental e concomitante aumento nos percentuais de escolaridade de quinta a oitava série do Ensino Fundamental e de primeiro e segundo anos do Ensino Médio.

Ao finalizar a apresentação, o pesquisador pontuou que o trabalho foi realizado em conjunto com diversos parceiros, como órgãos oficiais de extensão rural, universidades, empresas estaduais de pesquisa e organizações de produtores.

Ele ainda apresentou, a partir desse e dos demais trabalhos da Embrapa Cerrados com agricultura familiar e desenvolvimento rural, um conjunto de resultados relacionados a conhecimentos, soluções e tecnologias ligados ao processo de inovação técnica, como cultivares de milho, coletas de sementes e produção de mudas de espécies nativas, do Cerrado, sistemas de policultivos, corredores agroecológicos, entre outros; relacionados à inovação social, voltados à melhoria das relações entre os agricultores e suas organizações sociais; e relacionados à inovação institucional, como apoio a políticas públicas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo). Todo esse conhecimento está em publicações que podem ser buscadas no Portal Embrapa e baixadas gratuitamente.

Confira todas as notícias sobre a Feira Brasil na Mesa clicando aqui.

Fonte: Embrapa Cerrados – Breno Lobato (MTb 9417/MG)

Quer entender como a agricultura orgânica pode transformar o futuro do campo e do planeta?

Acesse agora o canal CI Orgânicos no YouTube e mergulhe em um universo de conteúdo gratuito, técnico e inspirador sobre a produção e comercialização de alimentos orgânicos no Brasil. Lá você encontra entrevistas, estudos científicos, matérias exclusivas e experiências de quem vive a agroecologia na prática. Nossa missão é fortalecer toda a cadeia produtiva orgânica com informação estratégica e acessível. Faça parte dessa transformação sustentável e colabore com um campo mais justo, saudável e resiliente. Inscreva-se, compartilhe e ajude a espalhar essa ideia!

Clique na imagem abaixo e confira a publicação Guia do Consumidor Orgânico da Sociedade Nacional de Agricultura:

Clique na imagem abaixo e confira a publicação Como Produzir Milho Orgânico? da Sociedade Nacional de Agricultura:

Clique na imagem abaixo e confira a publicação Como Produzir Milho Orgânico? da Sociedade Nacional de Agricultura:

Clique na imagem abaixo e confira na íntegra o Tomate orgânico: Técnicas de cultivo da Sociedade Nacional de Agricultura:

Clique na imagem abaixo e confira na íntegra o Como produzir tomate orgânico? da Sociedade Nacional de Agricultura:

Clique na imagem abaixo e confira na íntegra o Guia do Produtor Orgânico da Sociedade Nacional de Agricultura:

Aproveite para conhecer o Canal CI Orgânicos, apoiamos a cadeia de produção de alimentos e produtos orgânicos, desenvolvendo e divulgando materiais de interesse de produtores e consumidores.

Comentários

Os comentários estão desativados.

Siga no Instagram @ciorganicos

🌎 Principal fonte de inteligência sobre a cadeia produtiva de alimentos saudáveis e produtos orgânicos.

Boletim de notícias

Cadastre-se e receba novidades.