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Projeto quer plantar 10 milhões de palmeiras-juçara no Rio

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Rio, 22 de setembro de 2014.

juçara

Alexandre “Caminhão” amarra uma fita de nylon entre seus pés e uma palmeira-juçara. Dá um impulso e, flexionando os joelhos e apoiando as mãos na árvore, escala 17 metros até o seu topo. A cinta se ajusta até formar uma pegada segura para cada movimento da subida. Uma cadeirinha lhe dá apoio e o protege contra quedas. Ele passará as próximas horas sentado, usando um facão que estava guardado em sua bolsa. Os cachos de frutos cortados são amarrados na cintura para manter as mãos livres durante a descida. “Caminhão” chega ao solo carregando até 5 quilos de alimento. Esta é a primeira etapa de um ciclo que resulta em novas dietas, artesanatos, produção de anestésicos e a revitalização da face original da Mata Atlântica.

Na Serrinha do Alambari, em Resende, Sul do Estado do Rio, a árvore que sustenta “Caminhão” ganhou um movimento próprio, a Frente Pró-Juçara. A iniciativa tem apenas quatro anos, mas já nasceu ambiciosa. No Dia da Árvore, hoje, seus idealizadores anunciam uma meta ambiciosa: plantar 10 milhões de espécimes no estado até 2016.

O PRIMEIRO NOME DO PAÍS

A palmeira-juçara é uma espécie exclusiva da Mata Atlântica, que só existe entre a Bahia e o Norte do Rio Grande do Sul. Devido à extração ilegal de palmito, a palmeira está ameaçada de extinção.

A Frente Pró-Juçara trata da primeira espécie estudada pelo Projeto Amável, que pretende recuperar frutos raros da Mata Atlântica, como o cambuci, a cabeludinha e a uvaia. Foi eleita para iniciar os trabalhos devido à sua tradicional importância no bioma. Em algumas regiões da floresta, uma em cada quatro árvores era de uma espécie de palmeira. Não à toa os índios chamavam o Brasil de Pindorama — em tupi guarani, terra das palmeiras.

— Queremos recompor o status que essa árvore teve no bioma — explica Oscar Graça Couto, professor de Direito Ambiental da PUC-Rio e cofundador do Projeto Amável. — A meta é plantar, em toda a Mata Atlântica, 50 milhões de juçaras. É uma planta que pode interessar tanto à dona de casa que gosta de plantas quanto a um empresário que quer compensar suas emissões de gases-estufa.

Sua abundância no passado foi estraçalhada ao longo dos séculos por palmiteiros, que cortam a árvore antes de sua frutificação. A exploração ilegal e o desmatamento atingiram níveis recordes nos últimos 50 anos. Na década de 1990, a juçara foi incluída na lista das espécies ameaçadas de extinção.

O sumiço da juçara é um perigo para a fauna da Mata Atlântica. Pelo menos 60 espécies — entre tucanos, jacus e macacos — dependem de seus frutos.

— Além disso, a juçara, ao contrário da grande maioria das árvores, dá frutos na estação mais seca do ano, entre abril e agosto, quando há maior escassez de alimentos — destaca Graça Couto.

O valor nutritivo dos frutos também dá água na boca do homem. Têm três vezes mais antioxidantes do que o açaí, o fruto típico da palmeira amazônica, e também é mais rico em ferro e potássio.

A polpa do fruto coletado em Resende é usada na produção de um sorvete, o Juçaí. A pequena fábrica montada na região desenvolveu uma fórmula que mistura a juçara com inhame, banana e guaraná orgânico. O doce está disponível em poucas lojas no Rio. Mas seus criadores encontraram recentemente uma distribuidora que o levará a mais prateleiras.

JUÇAÍ
foto: Divulgação

— Até agora, o produto era comercializado em poucas lojas de produtos orgânicos — conta o empresário George Braile. — Agora temos um parceiro que permitirá expandir o alcance e promover degustações. O consumidor verá o Juçaí com mais frequência.

Diretor de Meio Ambiente do Juçaí e coordenador do Projeto Amável, Lucas Veloso assinala que a exploração do fruto da palmeira-juçara satisfaz a todas as áreas necessárias para realizar um negócio.

— É um projeto com forte viés social, grande pegada ambiental e economicamente promissor — acredita. — Promovemos o plantio e a colheita da juçara há quatro anos e, agora, vemos como é possível gerar renda mantendo a árvore em pé.

É, de fato, um investimento muito mais racional do que o promovido por palmiteiros. Durante os quatro meses de safra, o coletor dos frutos da juçara ganha, em média, até R$ 120 por dia. Nos anos seguintes, pode voltar aos mesmos local e emprego. Enquanto isso, o palmiteiro pode atuar durante todo o ano, mas seu trabalho, além de criminoso, rende pouco — cada árvore derrubada vale apenas R$ 5 em seu mercado e o obriga a buscar áreas cada vez mais remotas.

Depois da extração da polpa, as sementes da palmeira podem servir de adubo ou matéria-prima para artesanato.

O artesão Éder Oliveira largou o emprego de metalúrgico para criar joias, flautas e utensílios domésticos com sementes. Na sua oficina há objetos, como um abajur reforçado por fibras entrelaçadas, que valem até R$ 200.

— Podemos fazer mil colares por mês — diz. — Muitos coletores vêm trabalhar aqui, como artesãos, durante a entressafra.

Parte da palmeira também pode ser usada para a produção de anestésicos e material de desinfecção.

AJUDA DO PODER PÚBLICO

Para que o Rio seja reocupado pela palmeira-juçara, um milhão de sementes do fruto foi doado ao governo estadual. Segundo a superintendente de Biodiversidade e Florestas da Secretaria Estadual de Ambiente, Denise Rambaldi, elas foram distribuídas em todos os municípios fluminenses. Na capital, entre os locais que podem recebê-la estão os parques da Pedra Branca e da Tijuca.

— É uma espécie de grande valor ecológico, por servir como alimento de muitos animais — destaca. — Com sua distribuição, certamente ficará mais popular e contribuirá para mitigar a emissão de gases-estufa.

A Frente Pró-Juçara doou 10 milhões de sementes nos últimos quatro anos. Qualquer pessoa ou empresa pode recebê-las, sob a condição de que vai plantá-las. Segundo Graça Couto, praticantes de voo livre na Pedra Bonita jogarão sementes sobre a Floresta da Tijuca:

— Poucas das sementes atiradas vão nascer, mas temos tantas que podemos perder algumas. A natureza vai se encarregar de plantar o resto. Esta é uma forma de levar a palmeira de volta para casa.

Fonte: O Globo

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Publicado em 22/09/2014

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