Armazém Sustentável
Está localizado no Brejal, região que hoje é referência na produção de orgânicos no estado do Rio de Janeiro, por ser cercado da Mata Atlântica, garantindo o frescor e a abundância de seus produtos. Foi estabelecido em abril de 2010, após participar do 1o Circuito de Gastronomia Rural com a conserva orgânica de berinjelas.
Circuito de feiras mudou o cenário da produção e do comércio de orgânicos no Rio de Janeiro
Há 15 anos, capilaridade e trabalho em rede da iniciativa sustenta a agroecologia no estado e abastece a capital com comida sem veneno. Criado em 2010, o Circuito Carioca de Feiras Orgânicas foi um marco para a cidade do Rio de Janeiro. Por meio dessa organização de produtores, diversos bairros cariocas tiveram acesso facilitado a comida sem veneno.
Na outra ponta, o aumento no número de pontos de venda garantiu o escoamento de produtos agroecológicos de municípios do interior do estado e possibilitou o aumento da produção. Atualmente, o circuito conta com feiras em 13 locais diferentes. Uma das principais responsáveis pela criação do circuito é Cristina de Brito Ribeiro, produtora rural que é figura central na agricultura orgânica.
Em 1984, antes de o conceito de orgânicos ser popularizado, ela fez parte da fundação da Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio), entidade da qual ainda é coordenadora-executiva. A organização teve papel importante para disseminar a produção orgânica da região: chegou a ter 700 associados antes da pandemia e hoje são 450 ligados à instituição.
Cristina iniciou sua produção de hortaliças e legumes em um sítio em Nova Friburgo, a 170 quilômetros da capital, para oferecer alimentos de melhor qualidade às filhas. Aos poucos, o excedente da produção virou o seu negócio. “Os agricultores tinham história de familiares ou pessoas mais velhas que sofreram com envenenamento e doenças graves no contato com o agrotóxico na lavoura. Por isso, eles buscavam outras formas de trabalhar na terra”, diz a agricultora, hoje com 71 anos.
Dez anos depois da fundação, em 1994, a Abio organizou a primeira feira de produtos orgânicos de base agroecológica da cidade do Rio de Janeiro, na Praça do Russell, no bairro da Glória. Eram cerca de 16 feirantes com 35 barracas que traziam alimentos de seus sítios do interior. Eles viam a possibilidade de lucro em um mercado em expansão para os orgânicos, tinham orgulho de produzir um alimento de qualidade e mostravam preocupação com a própria saúde, lembra Cristina, que era uma das feirantes.
Expansão e novo formato
A comercialização na Feira da Glória foi essencial para os alimentos orgânicos do interior alcançarem a capital, mas ainda não havia clientes suficientes para absorver toda a produção. Por isso, ao longo dos anos, os agricultores ampliaram suas formas de venda e fizeram um box na Cobal (mercado público do bairro do Humaitá), feiras em clubes, igrejas e outros espaços.
Foi esse movimento que deu base para a formação do Circuito Carioca. As feiras se caracterizam por oferecer produtos orgânicos de base agroecológica. “A agroecologia é um corpo de princípios e conhecimentos base para várias agriculturas, inclusive a orgânica. No plantio, procuramos criar condições para que a natureza faça o seu papel e possibilite as relações necessárias para a produção. Um agricultor orgânico de base agroecológica não põe fogo na roça, deixa o solo coberto para manter os nutrientes e não usa adubo químico, herbicidas, agrotóxicos ou outros venenos agrícolas”, explica Cristina.
“Cada agricultor está em um estágio diferente de maturidade para as questões agroecológicas, porque há um processo de transição para resgatar as condições ideais para a agricultura e avançar para outros patamares, como ter agrofloresta ou autonomia de insumos. Esse movimento não acontece de uma hora para outra porque partimos de uma agricultura convencional, com ambiente degradado e relações rompidas com a natureza e com a biodiversidade, mas deve direcionar nossos esforços”, completa.
As primeiras feiras do Circuito Carioca foram instaladas em 2010 na Zona Sul, onde o mercado consumidor já estava mais estabelecido: Bairro Peixoto, Ipanema, Leblon e Jardim Botânico. A pioneira feira da Glória também foi incorporada. Nos anos seguintes, o circuito ampliou seus negócios para pontos das zonas Norte e Oeste (Tijuca, Barra da Tijuca, Olaria, Méier e Recreio dos Bandeirantes) e outras instituições. Além da Abio, passaram a fazer a gestão de novas feiras: Essência Vital, Rede Carioca de Agricultura Urbana (Rede CAU) e AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia. A quantidade de bancas e produtos vendidos varia entre as feiras conforme a demanda e o perfil dos consumidores, para que não haja prejuízo dos comerciantes ou desperdício de alimentos.
Os consumidores, segundo Cristina, são pessoas preocupadas com a saúde e com o meio ambiente e compram em solidariedade à agricultura familiar. “Quem vai à feira não se queixa do valor dos produtos, que não é mais tão superior ao visto no supermercado”, afirma.
Certificação entre parceiros
A certificação orgânica dos produtores das feiras do Circuito Carioca não é feita por empresas externas, que cobram cerca de R$ 10 mil ao ano do produtor. A responsável por isso é a Abio, que construiu uma maneira comunitária de garantir a qualidade dos produtos: o Sistema Participativo de Garantia (SPG), certificação de produto orgânico de baixo custo. São os produtores de uma mesma região que acompanham as práticas uns dos outros e atestam que são orgânicas. O sistema é usado no estado do Rio de Janeiro e também adotado por alguns produtores de Minas Gerais e de São Paulo.
No SPG, há acompanhamento constante da terra, do plantio e da colheita. Mensalmente, os pequenos grupos se reúnem e trocam informações e sugestões para lidar com os desafios da produção, como destinação do esgoto ou dos resíduos. Periodicamente, é feita a inspeção do grupo de vizinhos para controle das práticas e assinatura de documentos responsabilizando-se pela produção orgânica, e pontualmente há contratação de auditoria. Esse formato, que beneficia pequenos negócios que não podem pagar pela certificação tradicional, é adotado em outros lugares do país.
O percurso entre a roça e as feiras
A produção que abastece o Circuito Carioca vem da própria capital e do interior, de cidades como Seropédica, Mendes e Petrópolis, especialmente do distrito do Brejal. É de lá que Paulo Roberto Lima de Andrade sai com o caminhão cheio para abastecer parte das feiras do Circuito. Paulinho, como é conhecido, tem 54 anos e carrega legumes, verduras e ovos do seu sítio, o Candeias, e de 40 vizinhos. Para isso, reúne as mercadorias em um galpão de 300 metros quadrados e, três vezes por semana, pega a estrada às 2h da madrugada para distribuí-las pelas feiras depois que o sol nasce. “Estamos perto do Rio, mas a rotina na roça é muito exigente e a comercialização é trabalhosa. Por isso, assim como eu, há pessoas que cuidam dessa logística, enquanto os agricultores conseguem se manter na roça”, diz.
Apresentar os produtos do Brejal em uma mesma barraca, segundo Paulinho, é vantajoso para o cliente, que encontra mais opções em um só lugar. O sucesso é garantido: em uma manhã de maio, a banca do Brejal na feira da Barra da Tijuca tem abacates, limões e laranjas vistosos ao lado de alfaces e taiobas vendidos pela equipe que desceu a Serra Fluminense. “Produzir é gratificante demais, porque faz bem para o agricultor, para a família ao redor e para o consumidor, que ganha longevidade. Queremos que os clientes sejam nossos amigos, saibam o nome dos nossos cachorros, conheçam meus filhos, visitem a produção na Serra e almocem com a gente no fogão a lenha. Esses serão os maiores divulgadores do nosso trabalho”, afirma.
O responsável pela logística é neto de agricultores e, ao lado da esposa, começou a plantação orgânica na década de 1980, quando essa forma de cultivo se ampliava nas propriedades vizinhas, em territórios devastados pela exploração de madeira. Seus irmãos e filhos também atuam na roça e no comércio, enfrentando altos e baixos para se manter. Desde 2010, os orgânicos ganharam visibilidade entre os clientes, impulsionados pela maior conscientização sobre saúde e alimentação.
Paulinho defende a prática agroecológica como forma de respeitar os ciclos naturais e ganhar resiliência contra as mudanças climáticas. “A base da agricultura orgânica é a agroecologia. E a agroecologia significa não explorar a terra, e sim cuidar dela e das nascentes. A lógica é diferente da agricultura tradicional, que só olha para o resultado do que vai vender. Para nós, é muito importante fazer a rotação das culturas e o consórcio de produção, até para estar mais preparado para enfrentar as alterações climáticas, que podem prejudicar determinados cultivos. As sobras da colheita alimentam as galinhas, o esterco vira adubo e produzimos cerca de 30 a 40 variedades diferentes para manter o solo rico. A irrigação é feita por gravidade, com pouca mecanização e tecnologia. Toda produção orgânica do Brejal preserva o meio ambiente, a biodiversidade e cuida do lixo e do esgoto, porque a roça precisa estar livre de contaminação, seja do ar, da terra ou da água”, relata.
Em 2010, junto com um companheiro já falecido, foi fundado o Armazém Sustentável, empresa que produz geleias e conservas em um galpão às margens do rio Bonito, sob o canto dos pássaros e a sombra das árvores. Gustavo Aronovick fez cursos de gastronomia e se dedicou a receitas como conserva de berinjela carro-chefe da marca, escabeche, pepino agridoce e geleias de pêra e pimenta, jabuticaba, tomate e laranja-da-terra. Segundo ele, há quem chore de alegria ao provar o amargo da geleia de laranja e lembrar o doce da infância.
Cerca de 5% da matéria-prima vem do seu quintal, como ervas, pêra, jabuticaba e laranja, plantadas inclusive em um trecho de agrofloresta. O restante é comprado de 46 vizinhos, produtores orgânicos certificados por SPG. “Essa forma de certificação e acompanhamento do trabalho do produtor é incrível, porque criamos uma rede, fazemos networking constante com fornecedores e revendedores. As reuniões possibilitam debate, troca de conhecimentos sobre técnicas e discussões ideológicas, ampliando nosso olhar”, afirma.
Aronovick ressalta a importância da integração entre os ambientes do sítio e do entorno. “Se um vizinho usa agrotóxico ou desvia a água, outros serão impactados na qualidade da água e do solo, na variedade de espécies vegetais e animais. O ambiente que cuidamos permite qualidade de vida hoje e no futuro”, diz.
O produtor explica por que escolheu produzir de maneira agroecológica: “É uma produção feita de forma correta, sem uso de produtos químicos e que privilegia práticas pouco nocivas ao meio ambiente. Tenho 46 fornecedores muito próximos, da vizinhança, então a pegada de carbono no transporte é a menor possível, o que é muito bom”, comemora.
Atualmente, o empreendimento gera empregos diretos e indiretos, com familiares envolvidos na produção e outras pessoas contratadas para serviços pontuais no campo ou na cozinha. Em 2025, a empresa conseguiu exportar geleias de jabuticaba para os Estados Unidos, ampliando o alcance da produção agroecológica fluminense.
Fonte: O Joio e o Trigo
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