Turma do Ovo conquista chefs com assinaturas e, agora, procura capital crescer no nicho orgânico
Enquanto o mercado de ovos se consolida nas mãos de gigantes, startup busca R$ 2.35 milhões para seu modelo de negócio focado em subscrições e venda direta, com restaurantes renomados de São Paulo na clientela.
Antes visto como um “patinho feio” das proteínas, o ovo mudou de patamar há alguns anos com um mercado dominado por gigantes e movimentos de consolidação.
Enquanto grupos como Global Eggs (controladora da Granja Faria) e a Mantiqueira, hoje parte do grupo JBS, ampliam sua presença internacional, a Turma do Ovo, uma pequena produtora de ovos orgânicos, tenta crescer apostando justamente no oposto de uma escala continental: um modelo ainda mais nichado, focado em venda direta, relacionamento e recorrência.
A startup abriu uma rodada de captação de R$ 2.35 milhões via equity crowdfunding, por meio da plataforma Osten Invest, focada em investimentos alternativos. O objetivo da rodada é ampliar a produção, estruturar a operação e triplicar sua base de assinantes na região da Grande São Paulo.
Hoje, a empresa conta com pouco mais de 680 clientes ativos no modelo de assinatura e quer chegar a cerca de 2.000 consumidores recorrentes na próxima fase do negócio.
Para Rafael Camacho, fundador da Turma do Ovo, o crescimento nunca esteve associado a um volume puro. “Desde o começo, a ideia não era virar uma marca de supermercado. Sempre foi plano de assinatura, relação direta com o cliente”, afirmou, em entrevista ao AgFeed. “Eu quero ser o maior distribuidor de ovos porta a porta de São Paulo”.
Os recursos levantados serão destinados majoritariamente à expansão produtiva. Cerca de 85% do valor vai financiar a implantação de um novo entreposto, a construção de galpões automatizados e uma fábrica própria de ração. Outros 12% serão direcionados a marketing e aquisição de clientes, enquanto 3% ficarão como capital operacional. A meta é elevar a capacidade atual de 10.000 para até 20.000 aves.
“Chegou um ponto em que a operação bateu no limite físico. Eu cheguei a 10.000 aves no espaço que tenho hoje e simplesmente não consigo crescer mais ali”, acrescentou Rafael Camacho.
Sem entrar em detalhes, a empresa cita que cresceu 25% no último ano, com uma margem Ebitda que variou entre 20% e 30%. “O cliente Turma do Ovo não larga o ovo”, brincou o fundador.
Os documentos da oferta para os investidores da plataforma da Osten trazem uma projeção de faturamento para os cinco anos seguintes à captação. No primeiro ano, a perspectiva é de uma receita de R$ 2.8 milhões, que cresce de duas a três vezes por ano até beirar os R$ 20 milhões no quinto ano.
O modelo de negócio combina dois canais principais: assinaturas diretas ao consumidor e vendas para restaurantes e empórios premium.
Na cartela de assinantes, a empresa aposta em restaurantes com cardápios assinados por chefs renomados da capital paulista, como Rodrigo Oliveira, do Mocotó, Marcio Shihomatsu, do Shihoma, e Helena Rizzo, do Maní. Outros restaurantes badalados que compram os ovos da empresa são Evvai, Tordesilhas, Balaio IMS, Fame e Kuro.
“Um chef indica para o outro. Isso sempre foi muito orgânico”, disse Rafael Camacho. Mesmo fora das grandes empresas de ovos, o segmento de orgânicos hoje já conta com grandes nomes. A Raiar, por exemplo, uma das líderes desse mercado mais de nicho, faturou cerca de R$ 50 milhões em 2024 e planejava dobrar de tamanho em 2025.
Ainda assim, a Turma do Ovo aposta que há espaço para um modelo mais próximo do cliente. “Nosso contato é muito mais próximo, o cuidado com o produto é outro. Hoje nós temos mais assinantes que a Raiar, porque a gente consegue fazer operações que eles não podem pela diferença de volume”, afirma o fundador.
É justamente esse modelo que chamou a atenção da Osten Invest, responsável por estruturar a rodada. “A empresa pega algo tradicional, que nós conhecemos sempre pelos ‘carros do ovo’, mas trazendo inovação e um modelo de negócio disruptivo. Isso despertou nosso olhar”, disse Bruno Lima, CEO da plataforma.
As cotas da rodada partem de R$ 25.000,00, com uma rentabilidade média projetada de 34,14% ao ano, segundo a estrutura apresentada aos investidores. A Osten trabalha majoritariamente com investidores qualificados, que, segundo Lima, “entendem os riscos e as particularidades da economia real, ainda mais em um negócio ligado ao agro”.
Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?
A história da Turma do Ovo, no entanto, começa bem longe do campo. Rafael Camacho é passou cerca de dez anos no mercado financeiro em um escritório de investimentos credenciado à XP e aproveitava seus finais de semana em Piracaia, no interior paulista, onde a família mantinha um sítio.
“Eu sou nascido e criado na roça. Minhas filhas estudavam numa escola com uma pegada agroecológica e eu comecei a plantar orgânicos e distribuir na escola como uma distração”, lembra.
O passo seguinte veio quase por acaso. Rafael Camacho fez um curso de criação de galinhas orgânicas e decidiu montar um pequeno aviário com cerca de 200 aves, cujos ovos passou a levar para a escola das filhas, complementando as doações das verduras. “Eu chegava de terno, colocava as caixas e as pessoas pegavam. Fiquei conhecido como o cara do orgânico”, disse.
A demanda apareceu rápido e a iniciativa virou negócio. As 200 galinhas viraram 500, depois 1.000, sempre com a produção vendida antecipadamente. As galinhas são livres de gaiolas e com acesso ao pasto (free range), criadas sem hormônios, antibióticos, agrotóxicos ou transgênicos e alimentadas com uma ração de blend proprietário.
“Desde o começo, toda alimentação era orgânica. Eu fui atrás de fornecedor de milho, de soja, insistia para comprar uma tonelada quando o mínimo era um caminhão”, disse.
Com o tempo, vieram novos sítios arrendados, mais aviários e, junto com eles, os chefs de cozinha. Um dos casos mais emblemáticos foi a parceria com Shihomatsu. “Separei um aviário exclusivo para ele. É o único produtor que tem um aviário com naming rights”, brinca o CEO.
A ambição segue longe de competir com as gigantes do setor. “Eu nunca vou competir com Mantiqueira ou Raiar em volume. O meu jogo é outro: atendimento, entrega, recorrência”, afirma. A ideia é consolidar São Paulo antes de pensar em novas praças. “Não atendemos a Zona Norte nem a Zona Leste ainda. Tem muito espaço para crescer aqui antes de falar em outros estados, mas o modelo de negócio é facilmente adaptável”, disse.
Fonte: AgFeed
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