Consumidor

Para dirigente do Akatu, consumo consciente faz parte da cidadania

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Rio, 18 de outubro de 2018.
Origen, mercado e restaurante focado em produtos orgânicos e alimentação saudável em São Paulo. Foto: Sylvia Wachsner

Há 9 anos se comemora no Brasil o Dia do Consumo Consciente, em 15 de outubro. De lá para cá, aumentou o grau de consciência em relação ao consumo de forma geral no país e o acesso às informações pelas redes sociais trouxe um desafio maior para as empresas: aprimorar o diálogo com os consumidores na máxima transparência.

Essa é a avaliação de Helio Mattar, colunista da Folha, e há 17 anos à frente do Instituto Akatu, dedicado à pesquisa, ensino e difusão de práticas sustentáveis. Mattar é fundador do Instituto Ethos e membro de comitês de sustentabilidade de empresas como Pão de Açúcar, Unilever e Dow Chemical.

Leia a seguir trechos da entrevista de Helio Mattar à Folha

O brasileiro é um consumidor consciente?

Helio Mattar – Sim, é consciente, mas não consegue levar à prática. O teste online que o Akatu aplica desde 2003 mostra que 24% dos consumidores brasileiros tem alto nível de consciência. Críticas são feitas porque se diz que essa consciência não chega na prática, mas esse numero é de declaração de consciência. Numa questão de nossa mais recente pesquisa, testamos dez atitudes de consumo e em cada uma delas dois comportamentos possíveis, um consumista e um sustentável. A maior parte dos entrevistados escolheu as opções mais sustentáveis. Mas há barreiras à prática.

“O consumidor consciente e protagonista considera os impactos positivos e negativos associados à produção, ao uso e ao descarte dos produtos, dando a eles a mesma importância que dá ao preço e à qualidade, e buscando, ao longo do tempo, alternativas para não só minimizar os impactos negativos como também para melhorar o impacto de seu consumo”.

Akatu

Quais são as barreiras?

65% das barreiras estão ligadas a algum tipo de esforço que o consumo consciente exige. Quase metade é devida à percepção de preço. E essa percepção é de que o produto sustentável é mais caro. Isso deve ser herança dos orgânicos, que foram os primeiros itens mais sustentáveis a chegarem ao mercado. Ao mesmo tempo, na comparação com as pesquisas de 2012 e 2018, vimos que cresceu de 23 % para 48% o número de pessoas que dizem que compram produtos orgânicos. Ou seja, embora, haja a barreira do preço, houve aumento. Isso parece mostrar que quando o tema é saúde, o consumidor não se importa de pagar mais. Outra barreira importante para o consumo consciente é a da informação. O consumidor se ressente de que não há informação simples, clara e crível sobre os produtos. Então, a equação do desejo da consciência x prática precisa ser melhor resolvida em dois pontos: satisfazer essa necessidade de informação e mudar a percepção de preço. Outra barreira é a da disponibilidade dos produtos. O consumidor diz que é difícil de encontrar. Isso é mais verdade em algumas regiões, como Norte e Nordeste.

Que outras mudanças importantes aconteceram?

Quase dobrou (passou de 29% a 48%) o número de pessoas que dizem comprar materiais feitos com reciclados. As barreiras para aumentar a reciclagem são falta de local em casa adequado para armazenar e falta de infra-estrutura de entrega dos recicláveis, ou coleta. Uma mudança negativa se deu em relação à leitura de rótulos. Passamos de 69% em 2012 para 53% em 2018 os que os lêem. Um dado muito importante na última pesquisa foi a mudança do consumidor em relação às empresas. Em 2012, 49% das pessoas diziam não acreditar em nada que as empresas falavam. Em 2018, 24% não acreditam. É bem significativa essa mudança em seis anos. E há um detalhe muito relevante: em 2012, 12% diziam que acreditavam dependendo do local em que aparecesse a informação, e, em 2018, 31% dizem que depende do local onde está a informação? O que mudou? O aumento do acesso às redes sociais. O Akatu vem falando há tempos que a internet traz visibilidade e as redes dão transparência. Por isso, as empresas têm de aprimorar o diálogo com os stakeholders nas redes.

Qual a relação entre consumo consciente e exercício da cidadania?

A cidadania é um protagonismo cívico, tomar decisões em prol do coletivo, um protagonismo individual e em grupo que cria bons exemplos para os outros. Levado ao consumo, pode ter fortes impactos no meio ambiente e na sociedade. É portanto, um instrumento da vida cotidiana acessível a todas as pessoas, para que possam ter melhores impactos. Desde que o Akatu começou, há 17 anos, nosso mote é: transformar o cidadão consumidor num consumidor-cidadão, que se preocupa com os impactos do consumo no coletivo e no meio ambiente.

Fonte: Folha de S. Paulo 

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