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Sítio A Boa Terra: o holandês que é um dos pioneiros de orgânicos no Brasil

RuimRegularBomÓtimoExcelente
Rio, 21 de junho de 2018.
foto: CI Orgânicos

Joop e Tini, nossos pioneiros, são holandeses, mas foi no Brasil que suas histórias se juntaram. Ele trocou o sítio da família na Holanda pela agricultura de larga escala no Canadá. E em 1966, foi de Fusca para o Brasil, numa viagem que durou seis meses. Conheceu Tini, que já morava no Brasil com toda sua família e muitos bulbos de flores.

Trabalhando na agricultura convencional Joop começou a se incomodar com o uso de agrotóxicos, pois provocavam a intoxicação de trabalhadores, morte de animais, além da contaminação do solo e dos rios. Ele não gostava da ideia de jogar veneno nos alimentos. Inspirado em livros, como “Small is Beautiful”, de Ernst Friedrich Schumacher, sentiu que era hora de mudar! Hoje é um dos pioneiros da agricultura orgânica.

Quando estava com cerca de 40 anos, Joop era, em suas próprias palavras, um “especialista em veneno”. “Importei livros com descrições sobre centenas de agrotóxicos: o que era bom para qual praga, a dosagem e o grau de toxicidade de cada um.”

Em uma palestra no evento Food Forum, em São Paulo, no último mês de março, ele começou colocando cuidadosamente uma máscara e borrifando veneno em um prato de salada fresca. “Aqui eu usei só a dose permitida, dentro das normas. Agora quero ver quem quer comer essa comida”, desafia.

O Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo, e usa mais de 10 substâncias que já foram proibidas em outros países. Nas últimas semanas, deputados tentaram algumas vezes votar, em comissão especial, o Projeto de Lei (PL) 6.299/2002, que pretende reformular a lei atual sobre registro, fiscalização e controle de agrotóxicos. A votação na Comissão Especial da Câmara dos Deputados foi adiada três vezes e deve ser concluída nesta terça-feira. Este PL vem provocando polêmica entre especialistas. 

A História de Joop e Trini e o Sítio A Boa Terra

Numa viagem ao Brasil,  terminou em Holambra 2, colônia holandesa no interior de São Paulo,  conheceu Tini, também holandesa, de família grande e ligada à terra. Juntos, eles tiveram três filhas e duas netas, e criaram o Sítio A Boa Terra que, em 1981, se tornou o sétimo produtor de orgânicos certificado pelo IBD, a maior do país.

“Decidimos parar de usar agrotóxicos depois que tivemos vários acidentes. O irmão de Tini foi intoxicado pelo vazamento de uma máquina de pulverizar, e o veneno penetrou nos rins. Ele ficou muitos meses na cama e até hoje sofre com problemas renais”, afirma.

“Uma vez, estávamos plantando bulbos de flores e colocando um agrotóxico em cima dos bulbos para matar pragas. Atrás de nós vinha um funcionário com um burro, que caiu morto no fim do dia. Tinha cheirado a substância o dia inteiro. Também já tivemos que levar três funcionários para o hospital por intoxicação grave depois de usarmos um veneno misturado às sementes de milho. Tudo isso mexeu muito comigo”.

A transição, no entanto, levou cerca de 10 anos e precisou de uma boa dose de “criatividade”, segundo o agricultor.

Em 1981, junto com mais dois casais, criaram um dos sítios pioneiros de agricultura orgânica no Brasil: o Sítio A Boa Terra.

Na área social, formaram a ATRAI – Associação dos Trabalhadores Rurais de Itobi. Mais de 60 famílias, a maioria de trabalhadores rurais, receberam um hectare de terra no Sítio para cultivar seus próprios mantimentos e vender o excedente para aumentar a renda familiar. Com uma situação difícil de moradia para muitos, surgiu a Associação dos Sem Casa de Itobi. 107 famílias construíram suas casas em mutirão, inaugurando, em 1993, o Bairro da União em Itobi. Um belo marco de fraternidade que unia todos.

Na área ambiental, começaram com uma horta orgânica e distribuição de cestas na região. Ao mesmo tempo, deram início a uma marcenaria de móveis feitos de madeira de eucalipto para evitar o uso de madeiras nobres das florestas. E o eucaliptal existe até hoje no Sítio! Hoje, utilizamos 10 hectares do Sítio para cultivar nossos orgânicos e temos 70 hectares de Reserva Natural.

E em 2003, foi criado o Centro de Ecologia e Educação Ambiental, para ensinar o amor à natureza e como cuidar dela, onde recebemos grupos e desenvolvemos projetos em parcerias com escolas locais.

Inicialmente, Joop e Tini tentaram, e conseguiram, diminuir o uso de agrotóxicos seguindo uma estratégia chamada manejo integrado de pragas, em que aplicavam agrotóxicos em um ponto específico da germinação.

Isso permitiu que eles passassem a aplicar apenas 30% da quantidade de herbicida normalmente recomendada. Hoje, o sítio da família  também produz tomates em estufa usando apenas produtos com certificado orgânico e faz rotação de culturas. A monocultura, segundo especialistas, está associada à necessidade maior de agrotóxicos, já que altera o ecossistema e favorece o surgimento de pragas e insetos.

“Além de plantarmos vários produtos, também deixamos crescer um pouco de mato. Na agricultura convencional existe um fanatismo de combater até o último mato, é quase uma doença.”

“Mas se você deixa um pouco, a diversidade de plantas atrai uma diversidade de insetos. E aí você garante que os inimigos naturais das pragas também estejam lá. Se você tem pulgões, terá joaninhas que comem os pulgões”, explica.

Ele admite, no entanto, que a produção é mais difícil sem agrotóxicos, e exige mais cuidados e investimento, coisa que muitos pequenos agricultores não estão aptos a fazer.

“É fácil de condenar quem ainda usa (os químicos), mas não é tão fácil de mudar. Eu entendo isso. Ainda falta apoio para investirmos na tecnologia de produzir orgânicos.”

Joop e Tini continuam vivendo no Sítio, inspirando e acompanhando os trabalhos, e duas de suas filhas dão continuidade a essa história, junto a uma equipe de mais 30 colaboradores.  Acreditamos que a comercialização de cestas orgânicas com entrega na porta de casa cria vínculos essenciais entre cliente, produtor e a natureza, levando a uma relação mais próxima e a uma economia mais justa. Foram muitos desafios até aqui, mas conseguimos olhar com alegria e gratidão tudo o que construímos. Que juntos continuemos por muitos anos escrevendo essa Boa História!

O setor de orgânicos movimenta mais de R$ 3 bilhões e cresce cerca de 20% a cada ano no Brasil, segundo o Organis – Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável. Cerca de 70% deste mercado corresponde a alimentos produzidos dessa forma e certificados por organismos credenciados no Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os outros 30% correspondem a cosméticos, roupas, produtos de limpeza e outros.

Mas, apesar do crescimento, Joop diz que ainda é difícil para pequenos agricultores seguirem esse caminho. Com 30 funcionários eles produzem diversas hortaliças como alface, rúcula, escarola, temperos, olho poro , salsinha,  legumes como cenoura, mandioca, milho, quiabo, batata doce, beterraba, rabanete e inhame. Aos assinantes são entregas cestas com produtos orgânicos. 

“Temos muitos clientes entrando e saindo, mas os que permanecem ainda são poucos. As pessoas também questionam o preço, mas é preciso lembrar que na agricultura convencional, o produtor tem uma máquina que substitui 10, 20, 40 homens”, afirma Joop.

Como exemplo, ele explica que um hectare de batata pode ser cultivado por apenas uma pessoa na agricultura convencional. O manejo orgânico, no entanto, requer pelo menos oito.

“Aliás, todo mundo sabe que batata inglesa é o que mais precisa de agrotóxicos para produzir. Só que o Brasil tem raízes bem melhores que essa. A batata doce, em termos de nutrientes, é dez vezes melhor. Se o consumidor passar a consumir mais inhame, batata doce, cará, mandioca, mandioquinha, a mudança não fica impossível. O consumidor ajuda os agricultores a procurar outros produtos.”

Fontes: Sítio Boa Terra,  BBC News Brasil

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