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Produção de vinhos biodinâmicos segue fases da Lua

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Rio, 6 de dezembro de 2019.
foto: Biodynamic wines, Brigitte Bordeaux.

A agricultura biodinâmica, ainda pouco difundida, é uma mistura de técnicas sustentáveis com conceitos esotéricos e folclóricos de povos europeus antigos. O método, estabelecido pelo austríaco Rudolf Steiner, em 1924, remonta à uma ideia essencial nem sempre priorizada atualmente: o equilíbrio e a conexão mais íntima entre o homem e a natureza, na busca de qualidade de vida e sustentabilidade.

Se no caso dos orgânicos, cuja produção já é mais conhecida no Brasil e no mundo, o grande objetivo é não fazer uso de qualquer tipo de agrotóxico, na biodinâmica, o processo é ainda mais abrangente.

Nele, a propriedade é entendida e trabalhada como um “organismo agrícola”, de maneira holística, respeitando e valorizando a sua totalidade, pois há uma intensa relação de interdependência entre os sistemas empregados. Isto significa que todo cultivo biodinâmico é orgânico, mas nem todo orgânico é necessariamente biodinâmico.

Os preceitos que regem esta prática estão fundamentados na antroposofia, uma forma de conhecimento amplo que estuda o ser humano em diversos campos e níveis de conhecimento. Como principal ferramenta de trabalho do biodinamismo, surgem, em especial, nove “preparados” utilizados no cultivo e que reúnem em sua composição, por exemplo, materiais como quartzo, plantas medicinais, flores e esterco bovino.

A produção biodinâmica devem seguir as normas estabelecidas pelas organizações certificadoras como a Demeter, representada no Brasil pelo IBD Certificações.

Os nove preparados

Preparados Biodinâmicos, elaborados a partir das plantas medicinais milfolhas (502), camomila (503), urtiga (504), casca de carvalho (505), dente de leão (506) e valeriana (507), servem como suplemento ao composto, esterco, chorume e biofertilizante; conduzindo e organizando os processos de fermentação e decomposição. Foto: Associação Biodinâmica

A agricultura biodinâmica exige preparações específicas e, às vezes, estranhas para compostagem do campo. São os “nove preparados”.

Um deles é conhecido como estrume de chifre de vaca ou “preparo 500”. Nele, os chifres de vaca são recheados com composto de estrume e enterrados no solo durante todo o inverno e, posteriormente, escavados. Após a escavação, o material é espalhado por toda o vinhedo.

Existem poucas informações sobre o motivo pelo qual especificamente um chifre de vaca é usado (nunca o chifre de touro) ou o porquê dele ser enterrado no solo. De acordo com o site Biodynamic Services, a preparação 500 é “essencial”.

“É um meio poderoso para estruturar o solo”, explica o site. Também “estimula a atividade microbiana do solo”, regula o pH, estimula a germinação de sementes e dissolve minerais.

Um outro preparado é o chifre-sílica, ou 501, feito a partir do quartzo, é o “preparado da Luz” que atua trazendo forças da periferia cósmica e intensificando a atuação da luz solar. Este preparado é fundamental para a estruturação interna das plantas e seu desenvolvimento, assim como para a qualidade nutritiva das plantas e para a resistência a doenças.

Além desses, existem os seis preparados elaborados a partir das plantas medicinais: milfolhas (502), camomila (503), urtiga (504), casca de carvalho (505), dente-de-leão (506) e valeriana (507). Eles servem como suplemento ao composto, esterco, chorume e biofertilizante; conduzindo e organizando os processos de fermentação e decomposição. Por meio do composto preparado, eles colocam as plantas em uma condição na qual as forças do Cosmo sejam mais atuantes.

Vinho biodinâmico, Garibaldi, certificado Demeter. Foto: site empresa

Experiências no Sul do Brasil

Ainda que possa ser considerada uma proposta incipiente, a produção biodinâmica já tem alcançado resultados efetivos no meio vitivinícola da Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul.

Uma das pioneiras é a Cooperativa Vinícola Garibaldi, que incluiu em seu catálogo, no início de 2019, o Espumante Brut e o Suco de Uva da linha Astral, os primeiros vinhos biodinâmicos no país certificados por auditoria internacional.

A elaboração dos preparados biodinâmicos leva em conta os ciclos da natureza, como as fases da lua, o movimento dos planetas, usando conceitos de astronomia e astrologia.

“Os preparados permanecem enterrados durante um período do ano, então são colhidos e armazenados de forma adequada”, explica a engenheira agrônoma Lara Silvestrin, responsável técnica do trabalho inédito desenvolvido pela Garibaldi. A qualidade do material utilizado na elaboração é fundamental para a produção dos preparados biodinâmicos.

“Eles são divididos em preparados de campo, que são colocados nas áreas de cultivo e devem ser dinamizados por uma hora e, então,  aplicados em determinados períodos do dia. Já os preparados de composto são dispostos em pilhas de compostagem, utilizadas posteriormente na adubação das áreas de cultivo. Através de todas estas práticas, busca-se entrar num ciclo virtuoso de equilíbrio da propriedade com o meio em que está inserida, com menor dependência de insumos externos”.

Foco na qualidade

A produção biodinâmica de uvas na Serra se mostra promissora. Iniciado em 2014, o projeto envolve três produtores em uma área que alcança 11 hectares e com um trabalho em constante aprimoramento. O foco não está na alta produtividade vitícola, e sim na estabilidade e na qualidade das videiras e de seus frutos.

“Até agora, observa-se melhorias na qualidade da uva, especialmente no teor de açúcar. Mas principalmente, na propriedade como um todo, é perceptível o avanço na vitalidade das plantas cultivadas e espontâneas, assim como maior presença de insetos e animais selvagens. A produtividade, até então, apresentou redução, provavelmente pela restrição no uso de adubos”, destaca Lara.

Segundo ela, a expectativa é que os vinhedos atingirão um equilíbrio, estabilizando a produtividade, que se manterá constante mesmo em anos com maiores adversidades.

Desafios

Na outra ponta, onde estão os consumidores, aos poucos a receptividade vai se fortalecendo. “A percepção de cada pessoa com relação ao consumo de um alimento é muito particular. Com relação aos vinhos biodinâmicos, em todo o mundo, são muito reconhecidos por sua qualidade, a exemplo do francês Romanée-Conti. A menor interferência enológica e a busca pelo equilíbrio e pela expressão da planta no ambiente em que está inserida, através de seu fruto, podem ser a causa para este resultado”, avalia a engenheira agrônoma.

De acordo com Lara Silvestrin, um dos obstáculos enfrentados até aqui diz respeito justamente à elaboração de um dos preparados especiais, feito com suco das flores de valeriana, planta europeia que, apesar das tentativas, ainda não floresceu na região e precisa ser importada.

Outros empecilhos, segundo a especialista, passam pela inserção da criação animal integrada à produção vitícola e a produção de composto biodinâmico em volume suficiente para a adubação dos vinhedos, o que exige grande quantidade de material vegetal, esterco animal e mão de obra. ” Este último item pesa ainda mais pelo fato de se tratar de um modelo que envolve a agricultura familiar. Mesmo assim, o otimismo é um dos fatores que mantêm o projeto em andamento”.

Ela explica que todos os desafios estão sendo superados através de adaptações e manejos nas práticas agrícolas. Temos o objetivo de que mais viticultores orgânicos se tornem biodinâmicos com o tempo, porém, é uma grande mudança, que exige tempo e dedicação. Este é um projeto de longo prazo”, complementa Lara.

A engenheira agrônoma ressalta que a adesão a um consumo mais consciente, como o proposto pela agricultura biodinâmica, além de promover benefícios à saúde, também estimula a cadeia em que estas variedades são produzidas. “Dessa forma, o consumidor sabe que está alimentando um ciclo produtivo positivo”, conclui a profissional.

O papel da lua

No calendário celestial biodinâmico, a lua assume um importante papel como guia do que deve ser plantado em cada época do calendário lunar.

De acordo com a Associação Biodinâmica, antigamente, as pessoas diziam que, entre a lua minguante e a lua nova, “tudo o que dá da terra para fora míngua, e da terra para dentro cresce”. Essa sabedoria popular se justifica porque, durante esse período, a baixa reflexão de luz pela lua propicia o desenvolvimento das raízes, já que caules e folhas passam a demandar menos energia da planta. Portanto, nesse período, alimentos de que são consumidas as raízes, como tubérculos, rizomas e bulbos comestíveis, são favorecidos.

Em períodos de lua cheia, as noites são mais iluminadas, enquanto que em épocas de lua nova, temos noites mais escuras. É essa incidência indireta de energia solar sobre os cultivares que acaba afetando a forma como eles se desenvolvem ao longo das fases da Lua.

Já entre a lua crescente e a lua cheia, a energia de origem solar com que os cultivares são banhados ao longo da noite acaba excitando o vegetal e fazendo com que ocorra um fluxo maior em toda a planta. Portanto, cultivares de que são consumidas as folhas e as frutas são beneficiados nesse período. É o caso das uvas, por exemplo.

As plantas são divididas em quatro grupos dentro da agricultura biodinâmica, de acordo com os quatro elementos, e estão associadas aos signos do zodíaco. Foto: WineFolly

Calendário celestial biodinâmico

O calendário biodinâmico não atenta apenas para as fases da Lua, mas também para todos os signos do zodíaco. As plantas são divididas em quatro grupos dentro da agricultura biodinâmica, de acordo com os quatro elementos, e estão associadas aos signos do Zodíaco, e elementos da natureza: terra, água, fogo e ar.

Em períodos regidos por signos de água, são cultivadas plantas ligadas a esse elemento, ou seja, aquelas de que se utiliza mais o caule. Em períodos regidos por signos de terra, são cultivadas raízes. Em períodos de signos de fogo, as frutas são favorecidas, e em períodos regidos por signos de ar, são cultivados os vegetais cujas folhas são utilizadas.

Fontes: Vinícola Garibaldi, Biodinamica.org, BioWash, Demeter Certificações, Associação Biodinâmica, Vinepair, Revista A Lavoura/SNA
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