Produtor de Orgânicos

Embrapa se destaca no desenvolvimento nacional de bioinsumos

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Rio, 2 de agosto de 2022.

São inúmeros os insumos biológicos desenvolvidos pela Embrapa, em parceria com universidades e empresas, para controlar pragas e doenças das lavouras, promover o crescimento de plantas etc.    

  

O Radar Agtech Brasil 2020-2021, iniciativa da Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens, contabiliza a presença de 32 startups voltadas para o controle biológico e o manejo integrado de pragas.   

O mapeamento das startups do agro brasileiro inclui empresas voltadas para a comercialização e o desenvolvimento de tecnologias para o combate de pragas, doenças, controle populacional e otimização da utilização de insumos.  

Para se ter uma ideia da importância dessas substâncias, o Portfólio de Insumos Biológicos, uma das 34 ferramentas de apoio gerencial para organização de projetos em temas estratégicos da Embrapa, totaliza 96 pesquisas ativas sobre controle biológico de pragas, a promoção do crescimento de plantas e o desenvolvimento de fitoquímicos.   

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Entre essas pesquisas se destacam o uso de baculovírus no controle da lagarta-do-cartucho; nanopartículas bioestimulantes para melhorar o aproveitamento de água e o uso de nutrientes em culturas como pimentão, tomate e alface; bioproduto de mandacaru para estresse hídrico em milho; bioinseticida para o controle da cigarrinha-do-milho; fertilizante de base florestal e óleo essencial da pimenta-de-macaco no controle de doenças em peixes.  

A lista inclui, ainda, o uso do biocarvão de resíduos como condicionador para o solo. Condicionadores são substâncias que, agregadas ao solo, ajudam a melhorar suas características químicas, físicas e biológicas, aumentando a capacidade de suporte de plantas.  

A seguir, alguns bioinsumos desenvolvidos pela Embrapa, em parceria com universidades e empresas.  

Baculovírus contra a lagarta-do-cartucho

O bioinseticida BaculoMip SF é específico e eficiente para o controle da lagarta-do-cartucho e não afeta outros organismos no meio ambiente. Foto: Koppert

Resultado de uma parceria público-privada formada entre a Embrapa e a Promip, o mais novo bioinseticida BaculoMip SF,  já disponível no mercado, tem alta capacidade no controle da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), é inofensivo ao ambiente, a outros insetos e à saúde humana, pois não deixa resíduos na cultura.   

Aprovado para o cultivo orgânico, em sinergia com outras tecnologias de controle biológico, como a vespa Thrichogramma, o BaculoMip SF tem alta taxa de mortalidade da lagarta-do-cartucho, uma das principais pragas do milho, que também afeta a soja, além de mais de 100 espécies, entre cereais, hortaliças e frutas.  

Segundo Fernando Hercos Valicente, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo (MG), o BaculoMip SF é um inseticida microbiológico composto pelo vírus entomopatogênico Baculovirus spodoptera multiple nucleopolyhedrovirus (SfMNPV).   

“A alta eficiência desse baculovírus no controle da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) é alcançada quando o produto é posicionado corretamente em relação ao aparecimento da praga”, explica o especialista, que liderou o desenvolvimento do BaculoMip na Embrapa.   

Valicente salienta que, após ingerir o baculovírus, a lagarta demora cerca de cinco dias para morrer, porém, a partir de 48 horas, ela já diminui a alimentação. Uma inovação é o fato de o baculovírus romper o tegumento da lagarta, o que faz com que o inseto morto propague o vírus para outras lagartas-do-cartucho presentes na lavoura.  

“BaculoMip SF é específico para o controle da lagarta-do-cartucho e não afeta outros organismos no meio ambiente, como os parasitoides, os predadores e os insetos benéficos presentes nas lavouras. O mecanismo de ação do BaculoMip SF confere a ele a possibilidade de ser utilizado nos sistemas de cultivos orgânicos e convencionais. Este mecanismo de ação também confere ao produto a possibilidade de ser usado no manejo de resistência a inseticidas e no manejo de resistência das lagartas nas culturas Bt utilizadas comercialmente”, resume o pesquisador.

Manejo biológico 

BaculoMip SF é um bioinseticida microbiológico, composto por um vírus, e aprovado para o cultivo convencional e orgânico. Foto: Maurien Trabbold

O especialista da Embrapa explica que o manejo biológico de pragas é uma prática que permite manter a sustentabilidade das lavouras e do meio ambiente. Segundo ele, esta praga tem adaptabilidade muito grande nas lavouras.

“A lagarta-do-cartucho é a principal praga do milho, tanto na safra quanto na safrinha, e pode reduzir a produção de grãos em até 60%. A pesquisa trabalha para mitigar um pouco dos danos”, acentua Valicente.  

Evolução  

O Ceo da Promimp, Marcelo Polletti, ressalta que este lançamento é um marco histórico para a empresa, que já tem 15 anos no mercado de insumos biológicose representa uma evolução no controle da lagarta-do-cartucho. “O BaculoMip surge neste mercado como uma grande oportunidade para o produtor e deve ser inserido dentro de programas de manejo integrado de Spodoptera frugiperda. O grande diferencial deste lançamento é a integração do BaculoMip com o TrichoMip (Trichogramma pretiosum)”.   

Segundo Polletti, a junção do BaculoMip – atacando as lagartas – com o TrichoMip  -atacando ovos dessa mesma praga – potencializa o manejo em diferentes populações da praga, que adquiriram resistência a ingredientes ativos de defensivos agrícolas químicos,  em diversas regiões produtoras do País. “O TrichoMip utiliza a vespinha Trichogramma pretiosum, que impede a eclosão de ovos da Spodoptera frugiperda (ação ovicida)”. 

Biodedefensivo mata 100% da lagarta-do-cartucho

Aplicação manual do Spodovir, biodefensivo tem na composição um vírus que infecta a praga sem trazer riscos à saúde humana ou ao meio ambiente. Foto: Fernando Valicente

Batizado com o nome comercial de Spodovir, e desenvolvido pela Embrapa e a empresa suíça Andermatt Biocontrol, este é outro produto biológico é capaz de provocar a morte de 100% da população da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda).

“O biodefensivo tem na composição um vírus que infecta a praga sem trazer riscos à saúde humana ou ao meio ambiente. Isso porque sua base é um baculovírus, tipo de vírus que causa a morte somente de insetos e não prejudica microrganismos, plantas, mamíferos e vertebrados”, ressalta o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo,  Fernando Hercos Valicente, desenvolvedor e responsável pela tecnologia na Empresa.  

“O Spodovir será o primeiro lançamento global de um produto biológico com tecnologia da estatal, por se tratar de parceria com uma empresa privada com rede de atuação em diversos países”, informa o pesquisador.  

O produto foi registrado no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para o controle da lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda, principal praga do milho, capaz de reduzir a produção dessa cultura em mais de 50%, e pode ser usado em diversos cultivos, tais como soja, sorgo, algodão, arroz, pastagens e hortaliças.  

Segundo o cientista da Embrapa,  a grande vantagem desse produto biológico, também chamado de biodefensivo, “é que ele não afeta o meio ambiente, não intoxica aplicadores, não mata os inimigos naturais das pragas (insetos benéficos), não polui rios e nascentes e não deixa resíduos nos alimentos a serem vendidos nos supermercados, contribuindo, assim,  para uma melhor sustentabilidade e qualidade superior do produto disponibilizado para os consumidores”, enfatiza.  

Ele destaca que os biodefensivos à base de baculovírus têm melhor ação quando as lagartas são pequenas, desde recém-nascidas até, no máximo, o tamanho de um centímetro de comprimento, no caso da lagarta-do-cartucho.

“O posicionamento do Spodovir no campo é essencial para causar a mortalidade desejada e é dependente da região e do início de ataque da praga”, pondera o especialista, frisando que a eficácia de 100% do produto, obtida em experimentos, foi também resultado da aplicação correta dele.  

Embalagem do produto. Foto: Divulgação

Valicente frisa que o Spodovir, que vem em uma formulação em pó molhável, com recomendação de 50 gramas por hectare, precisa ser ingerido pelos insetos para fazer efeito, por via oral.

“Dessa forma, a pulverização deve respeitar esse fator (ingestão por parte do inseto) e a operação deve ser bem-feita. Os baculovírus não possuem ação de contato. Podem ser feitas aplicações a UBV (ultrabaixo volume) desde que com os equipamentos adequados. Serão iniciados testes para a pulverização com drones em soja e algodão”, anuncia o pesquisador.   

Ele explica que o produto deve ser aplicado, quando possível, após as 16h, período com menor incidência de raios ultravioletas (UV), que desativam as partículas virais no campo. “Outro motivo é que a lagarta-do-cartucho possui hábito noturno, iniciando sua alimentação no início da noite”.  

“Se a pulverização for feita no fim da tarde, não haverá desativação das partículas virais (não há radiação UV) e haverá o consumo do baculovírus que foi pulverizado sobre a plantação, por meio da raspagem das folhas pelas lagartas, causando a morte desses insetos”, explica o especialista da Embrapa, reforçando que “a aplicação deve ser ajustada com a necessidade e o tamanho da cultura e de acordo com a logística da propriedade”. 

Nanoproduto na nutrição de hortaliças

Nanopartículas bioestimulantes – obtidas por processo de modificação térmica do carbono – melhoram o desempenho de culturas como pimentão, tomate e alface, este último em sistema de hidroponia.

“Os bioestimulantes são produtos à base de substâncias naturais ou microrganismos que melhoram a eficiência nutricional, as respostas aos estresses abióticos, a produtividade e a qualidade  dos cultivos, que não dependem do nutriente contido”,  explica Juscimar da Silva, pesquisador da área de Solos e Nutrição de Plantas da Embrapa.

Segundo ele, esta foi a conclusão de uma pesquisa multidisciplinar, realizada por pesquisadores da Embrapa Hortaliças (DF), alunos e professores da Universidade de Brasília (UnB), que culminou com o desenvolvimento do Krill A32, nanoproduto que eleva a taxa de fotossíntese e melhora o aproveitamento de água e o uso de nutrientes pela planta.  

Efeito ultravioleta do bioestimulante Krill. Foto: Juscimar da Silva

“Krill A32 é um biofertilizante que tem efeitos nutricionais e fisiológicos favoráveis, além de ser metabolizado pela planta, ou seja, não é passível de acúmulo”, relata o especialista da Embrapa.

De acordo com Silva, o produto atua como fertilizante, ofertando macros e micronutrientes como nitrogênio, fósforo, potássio, ferro e zinco.

“Como se trata de uma nanopartícula contendo grupamentos funcionais (cargas elétricas de superfície), é possível incorporar elementos químicos de importância nutricional à sua matriz, e que serão carreados para a planta”, ressalta.  

“Isso permite avançar em estudos de biofortificação de pulses (leguminosas secas), enriquecendo o produto com minerais para a nutrição da planta e que poderão ser aproveitados pelos consumidores.”  

Experimentos  

Os trabalhos com o Krill A32 começaram em 2016, no Instituto de Química da UnB. Os campos experimentais da Embrapa Hortaliças foram utilizados para os testes iniciais com plantas de tomate, pimentão e alface, e, depois, ampliados com experimentos em Macaé (RJ), conduzidos pelo professor Daniel Zandonadi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“O produto, constituído de nanopartículas carbonáceas, contendo grupos funcionais que atuam como carreadores de nutrientes para as plantas, teve sua eficiência comprovada para esses três cultivos nos testes agronômicos”, relata Silva. 

O pesquisador cita a vantagem da forma em pó do produto, uma vez que pode ser usado em pequenas quantidades, o que facilita o manuseio e o transporte.

“Além disso, quando exposta a luzes ultravioletas, a nanopartícula emite uma luz azul ou vermelha, que mostra se o produto foi aplicado ou não, ou seja, ele serve também como um biomarcador fácil de ser rastreado”, acentua Silva.  

Criação de uma startup  

A parceria entre as duas instituições deu novo impulso aos trabalhos com nanomateriais carbonáceos desenvolvidos pelo grupo da UnB.

“A pesquisa avançou com os resultados dos primeiros experimentos e culminou com a criação da startup Krilltech, para gerenciar o escalonamento”, informa Rodrigues. “Estamos conversando com representantes de empresas agrícolas para fazer essa tecnologia chegar ao mercado.”  

Biocarvão de resíduos para o solo

Pesquisa da Embrapa Agrossilvipastoril (MT) está testando o uso de biocarvão, ou biochar, à base de pó de serra, restos vegetais, cama de frango e lixo urbano, como condicionador do solo, transformando um passivo ambiental em insumo benéfico para a produção de madeira e de alimentos. O estudo começou em 2012 e visa comprovar a eficácia do produto no cultivo de plantas em viveiros de mudas florestais e no campo.  

O biocarvão, ou biochar, contribui para o aumento da matéria orgânica no solo. Foto: Fabiana Rezende/Embrapa

“Condicionadores são substâncias que, agregadas ao solo, ajudam a melhorar suas características químicas, físicas e biológicas, aumentando a capacidade de suporte de plantas”, explica a pesquisadora da Embrapa Fabiana Rezende.  

Ela salienta que o biocarvão pode ser obtido a partir de diferentes matérias-primas, entre elas resíduos de agroindústrias, de restaurantes e até a lama proveniente do tratamento de esgoto. “No caso da pesquisa conduzida pela Embrapa, em Sinop (MT), o foco é o uso de pó de serra, produto abundante no norte de Mato Grosso como resíduo da indústria madeireira”, acentua.  

“O biocarvão obtido da queima controlada, ou pirólise, de diferentes compostos, de origem animal ou vegetal contribui para o aumento da matéria orgânica no solo. Ele permanece no solo por um longo período, favorecendo o uso em plantios florestais”, reforça a pesquisadora da Embrapa.  

Ela destaca ainda que o biochar  tem efeito benéfico e duradouro. “Carvão é um carbono que não é perdido facilmente. Uma palhada, se você não continuar repondo-a, vai embora em dez anos. Já o biochar, permanece por muito mais tempo”, frisa a especialista. 

Testes  

Na primeira etapa dos testes, o biocarvão de pó de serra foi usado em diferentes quantidades em viveiro de mudas de pau-de-balsa, eucalipto, teca e também maracujá.  

“As avaliações de desenvolvimento da planta, qualidade da muda e quantidade de matéria seca, mostraram que o uso do biochar ativado, junto com substrato comercial, apresentou melhor desempenho em comparação ao cultivado apenas em substrato comercial. Como resultado, foram obtidas mudas maiores, com maior capacidade de sobreviver ao plantio em campo e com melhores condições de crescimento inicial”, revela Fabiana Rezende.    

Ela informa ainda que “na avaliação econômica de cada formulação, a melhor alternativa econômica na produção de mudas foi o biochar ativado, na base de uma parte de biocarvão, para três partes de substrato comercial.”  

De acordo com a pesquisadora da Embrapa, após os testes em viveiro, as mudas de eucalipto e teca foram levadas a campo, para comparar plantas que não receberam biocarvão com as que obtiveram diferentes dosagens de carvão ativado e não ativado no sulco de plantio.  

“Usamos cerca de 30 toneladas de carvão não ativado por hectare e 8 toneladas de carvão ativado, que já é reativo. Mas o biochar, sem ativação, vai se ativar com o tempo. Queremos ver se vale a pena usar o ativado, que é mais caro”, pondera a especialista.  

Segundo ela, avaliações parciais mostraram que a resposta das plantas ao biocarvão ativado foi melhor, “porém, o teor de carbono no solo é maior onde foi usado o não ativado, completa.”  

Nova pesquisa

Trabalho iniciado recentemente, em parceria com Coopernova, do Estado, está avaliando o uso da mistura de biocarvão com compostagem à base de silagem velha de milho, esterco bovino, casca de arroz e cascas de frutas e vegetais descartadas por restaurantes, para a produção de maracujá.  

Segundo Fabiana, a compostagem foi aplicada, sozinha, no plantio das mudas e, também, misturada a tipos distintos de biocarvão, dentre eles, o de origem animal, feito com a queima de cama de frango, e de origem vegetal, oriundo da pirólise de casca de arroz em diferentes temperaturas (400º C e 600º C).

“Esse trabalho avaliará aspectos produtivos, sanitários e econômicos da produção de maracujá de acordo com o condicionador de solo utilizado.”  

Bioproduto de mandacaru  

O bioativo Auras é feito a partir da bactéria Bacillus aryabhattai, presente na rizosfera do mandacaru, nos solos da Caatinga. Foto: Divulgação

A rizobactéria Bacillus aryabhattai, encontrada na rizosfera (região onde o solo e as raízes das plantas entram em contato) do mandacaru (Cereus jamacaru), importante cacto da região da Caatinga,é a base de um novo bioinsumo que aumenta a capacidade de adaptação das lavouras de milho ao estresse hídrico.   

O produto foi batizado com o nome comercial de Auras e promove o crescimento da cultura, mesmo em condições de seca.  

As pesquisas com esse cacto da região da caatinga começaram em 2009 e resultam da parceria entre a Embrapa Meio Ambiente (SP) e a NOOA Ciência e Tecnologia Agrícola, de Minas Gerais.  

Sem concorrência  

“Auras é o primeiro produto comercial capaz de mitigar os efeitos causados pelo estresse hídrico nas plantas e não tem concorrentes registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)”, afirma o pesquisador da Embrapa Itamar Soares de Melo, que desenvolveu a pesquisa com a rizobactéria que deu origem ao bioativo.  

Ele conta que as bactérias tolerantes à seca, ao colonizar o sistema radicular das plantas sob estresse abiótico, produzem substâncias que hidratam as raízes, chamadas exopolissacarídeos. Para que os microrganismos cheguem às plantas, é feito um procedimento simples na hora de plantar: as bactérias são misturadas às sementes, por ocasião do plantio, em uma suspensão líquida, que pode ser água. 

A tecnologia foi desenvolvida pela Embrapa e será produzida e distribuída pela NOOA. O foco inicial será a cultura do milho. “A estimativa é que o Auras salve da seca de seis a oito sacas de milho por hectare, em média, com um custo ao redor de meio saco de milho por hectare”, calcula o especialista. 

A intenção é ampliar o uso do produto para outras culturas, como soja e trigo. A NOOA prevê que a nova tecnologia seja utilizada em 1% da área plantada de milho no País durante o primeiro ano. “A expectativa é alcançar 10% da área em cinco anos”, projeta o presidente da empresa, Claudio Nasser.  

Coleção de microrganismos  

A região do bioma Caatinga corresponde a uma área de 734.478 km2 e inclui nove estados brasileiros. Foto: Divulgação

O trabalho sobre a biodiversidade e a bioprospecção de microrganismos da Caatinga deu origem à primeira Coleção de Microrganismos de Importância Agrícola e Ambiental, lançada em 2013, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo (Fapesp). Ao todo, foram cerca de 20 mil isolados de fungos, bactérias, leveduras, arqueias e actinobactérias.

Amostras foram coletadas ao longo da Caatinga, em cinco estados: Bahia, Ceará, Piauí, Paraíba e Rio Grande do Norte. Os pesquisadores perceberam que o período de amostragem, chuvoso ou seca, foi o principal fator de alteração na estrutura das comunidades bacterianas, o que permitiu identificar potenciais microrganismos responsáveis pela resiliência ao estresse hídrico.

Bioinseticida controla a cigarrinha-do-milho

Pesquisa inédita, a partir da fermentação líquida do fungo Metarhizium robertsii, que resulta em leveduras chamadas blastosporos, culminou com o desenvolvimento de um bioinseticida natural para o controle da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), vetor de doenças sérias que podem levar à perda de até 90% da produção do cereal.  

O trabalho realizado por cientistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Universidade de Copenhague (KU), Dinamarca, abre caminho para o desenvolvimento de um bioproduto comercial que possa ser usado na lavoura.  

Cigarrinha-do-milho pode causar perdas de até 90% das lavouras do cereal. Foto: Divulgação

Segundo os pesquisadores, as células blastosporos podem ser diluídas e veiculadas com água, são tolerantes à dessecação e controlam adultos da cigarrinha após pulverização. Como rapidamente germinam, infectam o inseto pela cutícula, matando-o em poucos dias. 

Baixo custo e boa eficiência  

“A produção de fungos biocontroladores de pragas tem custo baixo, é eficiente e produz grande quantidade de blastosporos em dois dias de cultivo”, salienta o analista da Embrapa Gabriel Mascarin.   

“Podemos ainda manipular as condições nutricionais do meio de cultivo do fungo para obter blastosporos mais tolerantes a estresses abióticos, como dessecação, radiação ultravioleta e altas temperaturas”, informa Mascarin, acrescentando que, uma das formulações desenvolvidas na pesquisa, um pó molhável, “facilita bastante a aplicação do produto por pulverizadores convencionais”.  

O bioinseticida deverá ser utilizado em conjunto com outras práticas de um programa de manejo integrado de pragas (MIP) do milho. Na foto, a cigarrinha. Foto: Glauber Stümmer

“Os requisitos nutricionais são exigências do fungo para produzir um determinado tipo de célula ou biomassa. Nosso interesse principal foi a produção de blastosporos, que são morfologicamente similares às células de levedura”, explica a pesquisadora Natasha Iwanicki, da unidade de Biocontroladores de pragas agrícolas da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), na Esalq-USP. 

O método já foi validado em testes em laboratório e aguarda pesquisas em escala piloto para a validação em escala industrial. A Embrapa e a Embrapii/Esalq procuram parceiros para a finalização da pesquisa.  

Uso em conjunto com o MIP  

Conforme Mascarin, o bioinseticida deverá ser utilizado em conjunto com outras práticas de um programa de manejo integrado de pragas (MIP) do milho, que leva em conta outras medidas de controle, como variedades resistentes, inseticidas químicos seletivos, inimigos naturais como parasitoides e predadores, uso de feromônios, práticas culturais e outras.  

O objetivo do MIP é impedir que a praga atinja o nível de dano econômico na cultura do milho mediante uso integrado, ou combinado, de várias medidas de controle capazes de manter a população das pragas em um nível tolerável e sem prejuízo ao produtor.  

Fertilizante de base florestal

Produto foi desenvolvido dentro do conceito de biorrefinaria a partir de matéria-prima de base florestal. Foto: Divulgação

A nanotecnologia é uma aliada da Embrapa Florestas nas pesquisas para o desenvolvimento de fertilizantes de liberação lenta, tecnologia que contribui para a melhor incorporação desses produtos ao solo, evitando o desperdício e reduzindo os custos de produção.  

É esse o mote de um projeto realizado em parceria com a Polli Fertilizantes Especiais, em busca de um revestimento com polímero biodegradável utilizando nanopartículas para recobrimento, proteção e liberação gradual.

O projeto envolve celulose de eucalipto, sulfato de cálcio, carbonato de cálcio e alginato. “Os resultados de pesquisas em escala de laboratório são promissores. Agora, vamos testar formulações, levar a campo, em diferentes cultivos agrícolas e florestais, além de analisar sua viabilidade econômica”, revela o pesquisador Washington Magalhães, da Embrapa Florestas.  

Mais benefícios que o fertilizante convencional  

“Comparado ao convencional, o produto apresenta melhor solubilidade e facilidade de movimentação, em profundidade de solo, para atingir as diversas regiões do sistema radicular”, informa Thais Ramari, da Polli Fertilizantes Especiais.

“A partir da agregação das nanopartículas com a metodologia que a Embrapa Florestas vai estudar, pretendemos melhorar a ação e proporcionar benefícios que o fertilizante convencional não apresenta.”  

Segundo Francine Ceccon Claro, que vai desenvolver a pesquisa como parte de seu pós-doutorado, o polímero pode proteger o potássio contra perdas por lixiviação, ou o nitrogênio, e contra perdas por volatilização.

“Isso traz sustentabilidade ao sistema”, explica e acrescenta que a ideia é trabalhar com matérias-primas biodegradáveis, o que torna o produto mais compatível com sistemas agrossustentáveis.  

Biorrefinaria  

O projeto faz parte das pesquisas da Embrapa Florestas dentro do conceito de biorrefinaria, a partir de matéria-prima de base florestal. “Os plantios florestais podem ser fonte para inúmeros produtos e serviços, além de papel e móveis e inclui produtos com o conceito de química verde, com matéria-prima renovável e sustentável”, enfatiza o especialista.  

Pimenta-de-macaco: para doenças em peixe

Amostras de óleo essencial em laboratório

Óleo essencial da planta mostrou-se eficiente contra endoparasita na criação de várias espécies de peixes. Foto: Cliff Ramon

O óleo essencial da pimenta-de-macaco (Piper aduncum), planta nativa da Amazônia, tem 76% de eficácia no controle de parasitas monogenéticos do peixe pirarucu (Arapaima gigas), segundo resultado de uma pesquisa que avaliou o óleo como substituto de alguns medicamentos veterinários. 

O trabalho foi desenvolvido por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Embrapa Amazônia Ocidental (AM), no âmbito do projeto BRS Aqua.  

Os pesquisadores também determinaram parâmetros seguros para que o seu uso não comprometa outros organismos aquáticos.  

O óleo essencial de Piper aduncum mostrou-se e eficiente e seguro no controle de Hysterothylacium sp., endoparasita responsável por significativas perdas econômicas em criações de várias espécies de peixes, incluindo o pirarucu, conforme estudos da  Embrapa Amazônia Ocidental.  

Aplicações  

Planta da pimenta-de-macaco

Planta da pimenta-de-macaco. Foto: Murilo Fazolin

“As aplicações são feitas por meio de banhos – para avaliação da atividade anestésica e no controle de alguns parasitos – ou via oral, na dieta dos peixes, como imunoestimulante e em desafios com bactérias”, esclarece a pesquisadora da Embrapa Edsandra Chagas.  

“Nossa equipe tem tido boas respostas quanto à atividade anestésica, antibacteriana in vitro e no controle de endo e ectoparasitos, como monogenea e acantocéfalos”, conta Chagas. Ela acrescenta que,  para que seja adotado na piscicultura, serão necessários estudos de validação no campo, que ainda não estão previstos.”  

Para Patrícia Miura, da Unicamp, o trabalho abre caminho para o uso de produtos naturais para controlar bactérias e larvas de nematoides na piscicultura.  

“Esses organismos causam significativas perdas na aquicultura, e seu controle poderá ser feito também com outros óleos essenciais que também apresentaram eficácia comprovada nos testes”, acredita a cientista.  

Tratamento natural  

Segundo Miura, os óleos essenciais têm sido usados na prevenção e tratamento de doenças na aquicultura, causando menos efeitos ambientais adversos do que medicamentos veterinários. “Eles têm ação como sedativo, anestésico, antimicrobiano, antiparasitário, imunoestimulante e redutor de estresse”, revela.  

“Além disso, têm atividades inseticidas, moluscicidas e citotóxicas, possivelmente associadas à sua composição química. É rico em dilapiol, substância à qual é atribuída parte dos efeitos anti-infecciosos e antiparasitários”, detalha o pesquisador da Embrapa Claudio Jonsson.

Fonte: Fontes: Embrapa Milho e Sorgo, Embrapa Hortaliças, Embrapa Agrossilvipastoril, Embrapa Meio Ambiente, Embrapa Florestas, Embrapa Semiárido e Embrapa Agroenergia 

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