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Assentados do MST se propõem plantar soja orgânica

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Rio, 15 de dezembro de 2020.

Agricultores do assentamento Ernesto Che Guevara, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Sidrolândia, no Mato Grosso do Sul, começaram o plantio de 100 hectares de soja orgânica, em um projeto que terá duração de cinco anos.

A ideia é contrapor o agronegócio de commodities que invade o país, em especial a região Centro-Oeste, que teve o maior crescimento na produção de grãos do ano no Brasil – 6,8% em relação ao ano passado, conforme os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

O plantio é feito pelas famílias assentadas e tem apoio técnico da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de Mato Grosso do Sul. Segundo o MST, o objetivo é expandir o cultivo da soja orgânica para agricultores familiares de todo o país.

Para entender melhor o projeto e qual o significado da soja orgânica para o movimento, o Brasil de Fato conversou com Cleiton Valença, membro da direção estadual do MST em Mato Grosso do Sul.

Confira a entrevista:

Brasil de Fato: O que se pretende com esse projeto experimental de plantação de soja orgânica?

Devido ao avanço do agronegócio aqui no estado do Mato Grosso Sul, a soja está tomando conta de todas as áreas produtivas, inclusive em assentamentos. É muita invasão de soja transgênica.

As grandes empresas vêm trazer os seus pacotes tecnológicos, explorando a terra, trazendo veneno, trazendo doença para dentro dos assentamentos.

Diante dessa situação, a gente fez um debate dentro do MST, no setor de produção nacional e estadual, e fizemos o desafio de fazermos o plantio de soja orgânica.

Por que soja orgânica? Porque tem todo um protocolo de você respeitar a vida, respeitar o meio ambiente e trazer benefícios para as famílias. E contrapor o agronegócio. Provar que a soja orgânica é viável no mercado e livre de veneno.

Há uma invasão muito grande, dentro dos assentamentos, do agronegócio. Nós precisamos quebrar a monocultura. Só vamos conseguir fazer isso combativos.

A soja é, talvez, o principal símbolo desse agronegócio de exportação. A soja orgânica é também uma forma política de tentar quebrar a ideia de que a monocultura vale mais a pena?

Sim, essa é a ideia. Hoje, o principal alimento nosso é a soja, praticamente. Você vai ter uma alimentação saudável – você tem o óleo, tem o farelo. Então você vai trabalhar dentro de uma lógica. Com isso, estamos contrapondo o agronegócio.

O que vocês costumam produzir de alimento a partir de soja, já que a do agronegócio geralmente é usada só para alimentar animais no exterior? Como vocês fazem da soja um alimento direto para o prato do brasileiro?

Nesse primeiro plantio de 100 hectares nós fizemos uma parceria com uma empresa de ovos orgânicos. Esse vai ser o destinatário no primeiro ano. Mas estamos discutindo para poder fazer a nossa própria indústria a partir do segundo ano.

Fizemos uma parceria com uma empresa de ovos orgânicos.

Vamos poder esmagar a soja, tirar o óleo orgânico, que pode ir para a mesa do trabalhador tanto para comer quanto para ser vendido. Com o farelo, vamos tratar os animais nossos, que sobrevivem de farelo transgênico – tratar porco, tratar vaca. Serve para vários sentidos.

É possível que qualquer agricultor do Brasil produza a soja orgânica? É economicamente viável?

A soja orgânica hoje é viável, porque, como a gente trabalha com o orgânico, agrega valor. Hoje, a soja transgênica está em torno de R$ 130 [a saca]. Com a orgânica, se ganha 30% a mais em cima – então vai para R$ 150, R$ 170.

No orgânico, precisa de mão de obra, precisa capinar toda a lavoura nossa. No transgênico, como usa defensivo e passa o trator em tudo, não precisa de mão de obra. O orgânico, então, agregar valor para a economia dentro do assentamento. Além do preço bom, vai girar a economia para pagar diária.

E é viável para todo o Brasil. Vamos fazer no Paraná, em São Paulo. Estamos começando a expandir para outros estados também. Fizemos uma parceria com a Embrapa. Eles vão ceder várias experiências da soja convencional para produzir soja orgânica. Vamos ter muita capacidade técnica e operacional para poder assessorar os outros estados.

Qual mensagem o MST, os assentados, querem passar a partir dessa experiência, dessa nova forma de se produzir soja?

Eu gostaria de dizer a todos os assentados, não só do MST, mas todos os pequenos agricultores, que esse projeto é viável para a reforma agrária. Nós não vamos envenenar os assentamentos nossos. Vamos criar nossos filhos livres de veneno, livres de doenças que os transgênicos vêm provocando.

É viável para poder gerar mão de obra dentro dos assentamentos. Então, que os pequenos agricultores venham fazer parte desse projeto dos grãos orgânicos do MST.

Edição: Rodrigo Chagas

fonte: Brasil de Fato

 

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