Produtor

O Orgânico Solidário articulou uma rede de doações de alimentos para comunidades periféricas.

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Rio, 5 de junho de 2020.
Foto: site Orgânico Solidário.

Aziz Camali  Constantino é o coidealizador do Orgânico Solidário, projeto social que está levando orgânicos frescos para comunidades periféricas em meio à pandemia. Os alimentos são fornecidos a preço de custo e bancados por meio de doações recorrentes.

Cofundador da DZN e da SKEP, ele narrou sua trajetória aqui num Lifehackers, em maio de 2019. Seu projeto mais recente tem, por ora, cunho puramente filantrópico. E surgiu depois que o empreendedor recebeu a notícia da morte de um cliente “muito próximo”, diagnosticado com a Covid-19. 

Chocado pela perda, Aziz arregaçou as mangas. E provou que “tomar uma atitude” pode começar com algo tão prosaico como criar um grupo de WhatsApp e convidou outros empreendedores.  Era preciso estruturar o projeto com um olhar de negócio, “nos moldes de uma startup”. Não apenas uma campanha de arrecadação, mas o embrião de uma empresa. Segundo Aziz:

“Os projetos sociais precisam ser feitos para se perpetuarem, com modelos que se sustentem. É semelhante ao cultivo da terra: você planta, cuida, colhe — e planta outra vez” 

Decidiram que o caminho era estruturar um mecanismo de doação de alimentos orgânicos para comunidades de baixa renda, dando uma força inclusive para os pequenos produtores, baqueados pela crise. Os cabeças do Orgânico Solidário afinaram sua proposta: entregar cestas de 6 quilos, com 10 a 12 itens (dependendo da generosidade da safra), entre verduras, legumes e frutas em quantidade para o consumo de uma semana por uma família com quatro pessoas e negociar com os fornecedores para oferecer as cestas ao preço de custo.

O grupo foi atrás de dez fornecedores de orgânicos e descobriu que o valor médio de uma cesta como essa descrita acima seria de 100 a 150 reais. O preço de custo, porém, ficaria em 45 reais — e foi essa a quantia que o pessoal do Orgânico Solidário se propôs a pagar.

“Teve ainda uma discussão de gente falando que isso não alimenta… Depende da forma como se cozinha. Até o nosso modelo mental da fruta, legume e verdura precisou ser desfeito para podermos oferecer uma cesta que tem nutrientes e proporciona pratos ricos e coloridos”

Os produtores, por fim, toparam fornecer os alimentos pelo preço de custo, entendendo que seriam pedidos recorrentes, em grande quantidade e com pagamento à vista. A partir da segunda semana as doações triplicaram.  Os doadores  contribuem com quaisquer valor, e monta-se uma cesta a partir de R$45. Na primeira semana, foram 150 cestas arrecadadas para comunidades do Rio de Janeiro.

“Doamos para gente que não tinha o que comer e que fez a mágica de olhar aqueles itens e pensar em um cardápio completo, aproveitando até as cascas [de legumes e frutas] para bolo. Tem essa lógica de olhar a abundância na escassez”

Enquanto expandiam para a capital paulista, os empreendedores se debruçaram sobre um desafio: incrementar a capilaridade do projeto para o que foram envolvendo ONGs, associações de bairros, produtores, etc. Diversas empresas produtores de alimentos orgânicos atuam como interlocutores com os produtores. Pela quinta semana, o projeto já tinha atendido mais de 7 mil famílias (ou seja, 7 mil cestas) no Rio de Janeiro, em São Paulo e Santa Catarina. “Optamos por atuar nesses estados, pois são onde os cofundadores estão presentes. Precisava ter alguém engajado [no local] para fazer acontecer.”

“Estamos trabalhando do pequeno para o pequeno. Quando colocamos no site o logo de empresas, as pessoas pensam que se doarem [apenas] 45 reais, não estarão bajudando. Mas quando se fala de impacto social, uma doação — ou seja, uma família — importa muito”

Não significa que o apoio empresarial não seja bem-vindo. Hoje, 14 marcas são parceiras da iniciativa. Aziz cita a PagSeguro, que ofereceu taxas reduzidas para o pagamento das doações pelo site, e a Klabin, que colabora doando caixas em que os alimentos são distribuídos.

Aziz Camali Constantino, um dos idealizadores do Orgânico Solidário. Divulgação.

Na segunda quinzena de maio, quando a iniciativa já se encaminhava para a décima semana, o Orgânico Solidário estabeleceu um modelo de recorrência: além das doações avulsas, agora é possível contribuir com uma assinatura mensal. Esse modelo recorrente beneficia hoje 12 comunidades.

 

 

 

 

É PRECISO TOMAR CUIDADO PARA NÃO DAR “UM PASSO MAIOR DO QUE A PERNA”

Até a escrita do artigo,  4 de junho, já foram arrecadados mais de 775 mil reais, o que resultou na produção e distribuição de 78 toneladas de alimentos, com mais de 13 mil famílias atendidas (ou seja, 13 mil cestas distribuídas) em 71 comunidades nos três estados.

Manter o engajamento e a sustentabilidade do projeto num momento em que tantas causas disputam doações exige cuidados para não dar “um passo maior do que a perna”.

“Não adianta querer acelerar [demais]. É como ‘colocar agrotóxico’ na plantação, vai dar problema. Não estamos com a ‘cultura da pandemia’; se for preciso desacelerar as doações recorrentes para manter o projeto, entendemos que faz parte do ciclo”

Ao divulgar todo o processo (da coleta à distribuição) por meio de fotos, vídeos e depoimentos, o Orgânico Solidário reforça a conexão entre produtores, doadores e as comunidades. “O produtor começa a ver que está alimentando quem precisa.”

PLANOS FUTUROS: UM SELO ORGÂNICO E CULTIVO NAS PRÓPRIAS COMUNIDADES

Agora, existe a ideia de desenvolver um marketplace para conectar os produtores e seus clientes (inclusive aqueles doadores que até então não tinham o hábito de consumir orgânicos, mas que passaram a demonstrar interesse em introduzi-los na sua alimentação).

Há também a intenção de levar o projeto para mais três estados: Ceará, Espírito Santo e Paraná. A questão é que nem todos os agricultores mapeados têm a certificação oficial de produtor orgânico; segundo Aziz, o trâmite burocrático acaba se tornando um empecilho.

Leia a matéria completa, fonte: Projeto Draft, Orgânico Solidário

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