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Vespinhas ajudam no combate ao greening

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Rio, 22 de junho de 2022.

O greening é considerado a pior doença da citricultura mundial, com sérios danos causados à produção – e não tem cura. Segundo levantamento do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), no Brasil, os prejuízos são enormes: nas últimas cinco safras, mais de 66 milhões de caixas de laranja foram perdidas no cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste mineiro, a principal região produtora da fruta no mundo.

“Como não há tratamento para as plantas doentes, o setor de pesquisa focou em meios para evitar a doença – sendo o controle biológico uma dessas estratégias”, conta o pesquisador do Fundecitrus Marcelo Miranda, coordenador da área de Entomologia da instituição.

Um dos bons exemplos, segundo ele, são as vespinhas chamadas Tamarixia radiata, que ajudam na luta contra essa doença capaz de devastar plantações de laranja que tem, no inverno, o período de maior multiplicação do vetor do greening.

“Isso porque, durante o fim do inverno e início da primavera, a praga conhecida como psilídeo (Diaphorina citri), inseto vetor da bactéria Candidatus Liberibacter spp., causadora da doença, atinge seu pico populacional”, salienta o pesquisador.

O coordenador da área de Entomologia do Fundecitrus, explica que o controle do greening exige a adoção de diversas estratégias conjuntas, dentro e fora dos pomares, e que o controle biológico é mais uma ferramenta sustentável, para as áreas externas às fazendas.

“O pacote de manejo do greening prevê o uso de mudas sadias, inspeção e eliminação de árvores com sintomas e o controle do psilídeo, dentre outras medidas, de forma integrada”.

Contudo, ele ressalta que “além de atuar dentro da propriedade, é necessário que o citricultor realize ações externas, que consistem na substituição de plantas hospedeiras do psilídeo (citros e murta) por outras plantas não hospedeiras e no controle do inseto também ao redor das fazendas. E é este último ponto que contempla o uso da vespinha T. radiata, inimigo natural do psilídeo”, orienta.

Segundo o especialista, esse novo conceito de controle biológico foi desenvolvido com o objetivo de evitar o aumento da população dessa praga em locais como pomares abandonados, chácaras, sítios e zonas urbanas, onde há plantas de citros e murta, “ajudando a evitar a migração do inseto vetor das plantas sem manejo para os pomares comerciais”, acentua.

Miranda explica que o manejo com a Tamarixia radiata não pode ocorrer em áreas com controle químico, porque a vespinha é suscetível ao uso de defensivos. “Por isso, a estratégia é usá-la em áreas externas onde não ocorra aplicação desses agroquímicos”, ensina.

De acordo com o especialista, a frequência de liberações está atrelada à população de psilídeos na área, clima e época do ano. “As vespinhas podem se alimentar de ovos e ninfas de psilídeo de 1º ínstar [primeiro estágio de desenvolvimento] e parasitam ninfas de 3º a 5º ínstares. Uma fêmea de T. radiata pode parasitar até 300 ninfas e a ação conjunta entre predação e parasitismo pode eliminar até 500 ninfas”, afirma.

Para o coordenador da área de Entomologia do Fundecitrus, o controle biológico é uma alternativa complementar e sustentável para o manejo do greening, “já que não causa qualquer desequilíbrio ecológico, uma vez que a vespinha não atua sobre outras espécies de insetos ou plantas”, completa.

Estudos do Fundecitrus e da Esalq/USP demonstraram que a vespinha pode parasitar até 75% das ninfas de psilídeos, e trabalhos recentes realizados pelas instituições indicaram que a quantidade correta de vespinhas a ser liberada por hectare é de 3.200 insetos.

“Já em áreas onde não há muitas plantas juntas (como em chácaras e quintais), o manejo é realizado por planta, com a liberação de até 60 vespinhas”, aconselha Miranda.

Criação das vespinhas

O primeiro laboratório para criação das vespinhas surgiu em 2005, dentro da Esalq/USP, para estudos e disseminação do conhecimento. Em 2015, uma parceria entre a divisão agrícola da Bayer e o Fundecitrus levou à instalação de um novo laboratório, com capacidade para criar 100 mil vespinhas por mês, que possibilitou o aperfeiçoamento das técnicas para sua multiplicação.

“Hoje, temos materiais e cartilhas para auxiliar os produtores que têm interesse em fazer isso”, conta o pesquisador.

Mas, segundo ele, se engana quem pensa que é algo fácil, “uma vez que o inseto é extremamente difícil de se criar”.

Para isso aconteça, o coordenador do Fundecitrus explica que é preciso produzir plantas de murta, criar o psilídeo nelas, para somente depois, produzir as vespinhas”, conta Marcelo Miranda.

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Método sustentável

O gerente de portfólio para Frutas e Vegetais da Bayer, Fábio Maia, esclarece que a ideia do laboratório não é resolver os problemas causados pelo greening com as vespinhas, “mas contribuir com um método sustentável de apoio ao controle externo e disseminar o conhecimento entre empresas e fazendas interessadas em produzi-la”.

Segundo ele, a decisão de incentivar uma biofábrica para a produção dessas vespinhas é um processo colaborativo e precisa estar conectada às demandas atuais.

“É por isso que a Bayer tem fomentado e atuado por meio do modelo de inovação aberta para firmar parcerias em busca de soluções sustentáveis para desafios e problemas do agronegócio. Já existem algumas fazendas e cooperativas criando as vespinhas e esse é o nosso intuito: levantar a bandeira da sustentabilidade, aperfeiçoar o modelo, como já estamos fazendo, e repassar para os interessados”, diz Maia.

Soltura gratuita

O Fundecitrus realiza a soltura gratuita das vespinhas produzidas em sua biofábrica por todo o parque citrícola, beneficiando muitos citricultores e pomares comerciais.

“A laranja é o terceiro principal produto agropecuário produzido por São Paulo em valor de produção, totalizando mais de R$ 5 bilhões. O controle externo é uma medida de manejo fundamental contra a doença, e a Tamarixia é um componente sustentável e de inovação dentro do manejo integrado do greening. Por isso, a importância de fomentar soluções sustentáveis que podem contribuir com o problema”, finaliza Marcelo Miranda.

 

Fonte: Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus)

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